domingo, 30 de janeiro de 2011

DIVINO, SEM DÚVIDA

Quase meio-dia. Para quem acordara cedo, a fome começava a bater. Apertava ainda mais com a lembrança do cardápio que, já de manhã, estava escrito na lousa à porta do bar. Bem à vista de quem, lá por volta das oito horas, foi tomar café. Pingado com pão e manteiga na chapa.
Virado à paulista, bife à parmegiana, feijoada. Ah, e que feijoada! Servida na cumbuca. Vinha borbulhando, recém saída do fogão. Macarrão ao sugo, espaguete com almôndegas, filé de peixe, bife acebolado, frango-a-passarinho, costelinha e dobradinha.
Era só atravessar a rua e acomodar-se em um dos banquinhos à volta do balcão em “U”.
À entrada, perto da porta, a petisqueira, uma vitrine com apetrechos para um lanche rápido. Salsicha ao molho, pernil assado, empadinha, bolinho de carne, enroladinho, croquete...
Ao fundo, a cozinha. Por uma espécie de guichê, eram entregues os pratos feitos. Quase não havia necessidade de pedidos. Sabiam a preferência de cada um. Nem bem o freguês apontava na porta do prédio e seu prato começava a ser preparado. Com cebola, sem cebola, porção pequena ou generosa, pãozinho ou não, refrigerante ou suco de laranja.  Sabiam até o horário em que cada um costumava almoçar.
Dona Nadir começava cedo. Era ela quem controlava a qualidade e o tempero dos pratos.
Por volta das onze horas o movimento começava. Avançava até duas e pouco. Era almoçar, tomar o cafezinho e voltar para o trabalho. Não precisava pagar na hora. Marcada na caderneta, a conta era apresentada no fim do mês.
Atendimento de primeira. O dono do bar, o Nelson e os meninos se acotovelavam no espaço apertado para garantir a satisfação do cliente.  
Bebida alcoólica no balcão? Nem pensar. Aquele ambiente era para as famílias e, em especial, para a família ferroviária. O passante que ousasse confundi-lo com um mero boteco e pedisse uma “branquinha” para esquentar o frio, era “gentilmente” convidado a se retirar.
Foram muitos anos juntos. Crescemos juntos. Desde o tempo em que o César e o Wagner tinham que ficar nas pontas dos pés, para que conseguissem alcançar o balcão. Nossos filhos também passaram por lá. Nós o levávamos ao bar para um lanche rápido, almoço ou apenas um doce ou refrigerante. Estava no roteiro do passeio. Convivíamos diariamente com aquela família. Éramos todos “de casa”.
E assim vivemos juntos até os últimos dias. Até o dia em que o prédio da Rua Barra Funda, 930, foi esvaziado. Seu pessoal transferido para Júlio Prestes e Consolação. A família ferroviária, separada. Dividida em pequenos grupos. Despejada.
Sem ninguém a defendê-la, ficou à mercê de sua própria sorte, até se tornar apenas uma lembrança, parte de uma história.
E o pequeno bar, que nascera para servir àquela família, foi aos poucos perdendo a vontade de continuar vivo. Não fazia mais sentido levantar suas portas de aço e ficar aguardando inutilmente a chegada do pessoal. Não havia ninguém para pedir o pingado com pão e manteiga na chapa. No almoço, pratos vazios. Do outro lado da rua, silêncio. Ninguém mais vinha procurar pelos pastéis fritos na hora e os sonhos especialmente feitos para o lanche da tarde.
Um dia, não resistindo ao peso de tanta saudade, suas portas de aço não mais se levantaram. Perderam suas forças. Amanheceram fechadas. Tenho, comigo, que escondiam suas lágrimas.
O prédio em frente ficou triste.  Do alto de seus três andares, também chorou. Perdeu um amigo, um companheiro de muitos anos. Ninguém nunca imaginou que pudesse fazer tanta falta. 
E olha que a construção mirrada e meio fora de prumo do outro lado da rua era apenas um bar. Um pequeno bar. O bar do Divino.

6 comentários:

  1. Você escreve de tal forma, que consigo sentir o sabor das delícias do cardápio da dona Nadir.
    Dos pastéis, dos sonhos...
    Obrigada por reavivar minhas lembranças e por não me deixar sozinha na minha saudade.
    Beijos

    Cecília

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  2. Tenho boas lembranças do bar do Divino também! Em 1984, mais precisamente no dia 25 de julho, fui apresentado ao Wagner e ao Cesar como novo cliente tendo você como avalista . A partir desse dia eu poderia fazer minhas refeições e pagar no dia do pagamento.

    abraço

    Pedrinho

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  3. Pois é: eu não conheci o Divino, não conheci o bar mas senti todos os sabores e aromas desse lugar.
    Que bonito! Você escreve com o coração. Me deu até vontade de voltar a escrever também.

    Beijos

    Célia

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  4. oi meu amigo, estou muito orgulhosa de voce, me fez chorar, que coisas linda que escreveu, que realidade vivida por todos que experimentamos esta familia FEPASA, ficou gravada em todos os coraçoes, nao vai ser facil apagar., me sinto previlegiada de ter passado por esta vida e vivido tudo isto que vivemos.Graça, Graça...por tudo que experimentamos todos os companheiros e amigos que cruzaram: Divino e familia, voces, Nagia, Yeda, Margarida, Aracy, Sr. Pires e familia, Cecilia, enfim todos, todos.....uma pena o final.......Mas, contento porque ficou a amizade o carinho e respeito por todos, isso nao termina nunca, creio que casa dia cresce, porque vamos amadurecendo e sentindo este afeto que ja foi vivido e permanece em cada um de nos.Ayrton, parebens, parabens, continue...foi aprovado....tem DOM APROVEITE......UM ABRAÇO ...GRAÇA E FAMILIA

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  5. Confesso que senti um certo nó aqui no peito, ao ler essa matéria. Perdoe-me a ignorância em não saber distinguir crônica de texto ou outro material elaborado.
    O Divino fez parte de minha vida durante dez rápidos anos. Que saudades!. Raras foram as vezes em que tive que dizer o que queria. Eles realmente sabiam de tudo.
    Parabéns meu amigo. Fico feliz em ter sido "descoberto" pela Cecília. Continue "na linha" porque, dentro em breve, quero poder dizer para meus amigos caipiras: Esse cara é meu amigo!!!
    Um grande abraço.
    Zé Wilson

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  6. Puxa, que saudades danada... Vc me emocionou.
    Éramos felizes e o pior de tudo, SABÍAMOS.
    Hoje, lembranças doces e boas ficaram e ficou tb ma vontade enorme de experimentar um Quero Mais...
    Coitados daqueles que passam pela vida e não tem lembranças boas, como nós temos.
    Parabéns, parabéns, parabéns, belíssimo texto.
    Bjs

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