quarta-feira, 11 de novembro de 2020

 Pátio Esperança - O mundo de Zé do Apito e de Nhá Zefa

 

O Pátio Esperança resistia ao desmanche, sucateamento e desativação a que era submetida grande parte da malha ferroviária, por ocasião da privatização/desativação da ferrovia.


 

 A casa era modesta, porém, dentro das possibilidades, confortável e de um asseio de impressionar. Uma construção de quatro águas, separadas das demais por uma cerca baixa, feita com tábuas estreitas, com pontas afiladas, dispostas verticalmente e pregadas lado a lado em travessas horizontais, por sua vez, presas em mourões fincados na terra.

Logo na entrada, ladeando o corredor que levava do portão à casa, o pequeno e bem arranjado jardim. Rosas se misturavam harmoniosamente com margaridas, palmas, brincos-de-princesa e dálias, dando sinais claros dos cuidados de dona Zefa. Os vasos com samambaias, rendas portuguesas e petúnias se penduravam pelas paredes do alpendre, delineando o contorno da porta da frente. As janelas, uma de cada lado, enfeitavam-se com minúsculas flores plantadas em miscelânea nas jardineiras caprichosamente entalhadas em troncos de árvores e dependuradas rentes a seus parapeitos.  

A construção, em si, era rústica. Tijolos assentados com barro misturado ao esterco animal, para dar liga; reboco com areia grossa e uma demão de cal, com tintura em tom amarelo-creme, cor padrão da companhia para as casas da turma. Madeiramento de paus tirados da mata ao redor e cobertura com telhas de cerâmica, trazidas de fora dali.

No interior, uma sala com mesa de madeira maciça e quatro cadeiras faziam companhia a uma cristaleira, presente de casamento de um dos padrinhos, e ao rádio de válvulas, no suporte de madeira em um dos cantos. Nas paredes, em molduras ovais, fotografias de pessoas da família, quadros de santos e algumas gravuras de animais e paisagens tiradas de revistas e calendários. No centro da mesa, dona Zefa fazia questão de manter um vazo de flores, trocadas todos os dias, para que estivessem sempre vivas.

 Autor: Ayrton Corrêa – Adaptação de trecho do livro "Pátio Esperança", publicado em 2017, pela Editora Clube de Autores.

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