Pátio Esperança - O passado indo embora
O Pátio Esperança resistia ao desmanche, sucateamento
e desativação a que era submetida grande parte da malha ferroviária, por ocasião
da privatização/desativação da ferrovia.
As mãos segurando a cabeça
que, a essa altura, pesava toneladas, Zé do Apito observava impotente as
máquinas pesadas juntando e carregando aquele amontoado de ferro velho. As carretas
revezando-se num vai e vem incessante, levando, sabe-se lá para onde, um pedaço
da vida do seu Zé.
O seu nome de batismo ninguém mais sabia qual era. Do
tempo em que, com seu apito estridente, sinalizava o comportamento dos trens,
ganhou o apelido de Zé do Apito. E pegou. Todos, inclusive sua família,
passaram a chamá-lo pelo carinhoso apelido.
No começo, ele achou meio estranho e bem que quis
estrilar. Afinal, sua madrinha teve tanto trabalho para escolher um lindo nome
para o pequerrucho igualmente lindo e, agora, sem mais nem menos, resolvem
trocá-lo! Mas foi acostumando-se e aprendendo a gostar. Hoje, se o chamam pelo
nome de batismo, não atende, não é com ele.
Não se podia dizer que ele era um touro de forte, mas
franzino também não o era. Em seus pouco mais de um metro e setenta, magro,
olhos claros e muito vivos; rosto comprido e nariz fino sobre o bigode sempre
muito bem aparado, Zé do Apito parecia ser um homem feliz. Trazia no rosto uma
expressão alegre, embora tivesse, como ele mesmo costumava dizer, comido o pão
que o diabo amassou.
...
E agora, ali estava ele. Olhar perdido no horizonte; mais
ouvia do que via. Seus ouvidos se enchiam do gemer provocado pelo esfregar das
ferragens que eram jogadas, de qualquer maneira e sem dó, na carroceria dos
caminhões.
Autor: Ayrton
Corrêa – Adaptação de trecho do livro "Pátio Esperança", publicado em
2017, pela Editora Clube de Autores.

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