domingo, 1 de novembro de 2020

 Pátio Esperança - O passado indo embora

O Pátio Esperança resistia ao desmanche, sucateamento e desativação a que era submetida grande parte da malha ferroviária, por ocasião da privatização/desativação da ferrovia.

 


 


As mãos segurando a cabeça que, a essa altura, pesava toneladas, Zé do Apito observava impotente as máquinas pesadas juntando e carregando aquele amontoado de ferro velho. As carretas revezando-se num vai e vem incessante, levando, sabe-se lá para onde, um pedaço da vida do seu Zé.

O seu nome de batismo ninguém mais sabia qual era. Do tempo em que, com seu apito estridente, sinalizava o comportamento dos trens, ganhou o apelido de Zé do Apito. E pegou. Todos, inclusive sua família, passaram a chamá-lo pelo carinhoso apelido.

No começo, ele achou meio estranho e bem que quis estrilar. Afinal, sua madrinha teve tanto trabalho para escolher um lindo nome para o pequerrucho igualmente lindo e, agora, sem mais nem menos, resolvem trocá-lo! Mas foi acostumando-se e aprendendo a gostar. Hoje, se o chamam pelo nome de batismo, não atende, não é com ele.

Não se podia dizer que ele era um touro de forte, mas franzino também não o era. Em seus pouco mais de um metro e setenta, magro, olhos claros e muito vivos; rosto comprido e nariz fino sobre o bigode sempre muito bem aparado, Zé do Apito parecia ser um homem feliz. Trazia no rosto uma expressão alegre, embora tivesse, como ele mesmo costumava dizer, comido o pão que o diabo amassou. 

...

E agora, ali estava ele. Olhar perdido no horizonte; mais ouvia do que via. Seus ouvidos se enchiam do gemer provocado pelo esfregar das ferragens que eram jogadas, de qualquer maneira e sem dó, na carroceria dos caminhões.

Autor: Ayrton Corrêa – Adaptação de trecho do livro "Pátio Esperança", publicado em 2017, pela Editora Clube de Autores.

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