Pátio Esperança - Os homens da cidade grande II
O Pátio Esperança resistia ao desmanche,
sucateamento e desativação a que era submetida grande parte da malha
ferroviária, por ocasião da privatização/desativação da ferrovia.
Falaram, gesticularam, apontaram para todos os lados e se
retiraram. Naquela tarde, dois amigos preferiram descansar do lado de fora, à
sombra de uma seringueira, deitados na grama, perto da locomotiva que enfeitava
o pátio das oficinas e que servia de atração turística aos visitantes.
Dona Maria Fumaça não costumava prestar muita atenção nas
conversas, afinal, não tinha nada a ver com a vida dos outros.
Mas agora a conversa merecia atenção.
– Fica difícil acreditar. Fazem tantos planos e incluem a
gente em tantos programas de treinamento, que uma história dessas me parece um
tanto absurda. Tem até um tal de programa de qualidade total sendo implantado e
que promete ótimos resultados a médio e longo prazos. É muito dinheiro sendo
investido no preparo dos empregados para que joguem tudo isso pela janela.
– Sabe estes homens engravatados que acabaram de chegar?
Pois bem, são da administração lá da capital. Vieram fazer o arrolamento dos
bens para dar destino a cada um deles. Pode crer, a coisa já começou – disse
baixando o tom de voz, com medo que pudessem ouvi-lo.
– Arrolamento quer dizer levantamento, lista, não é? Eles
estão fazendo uma relação do que tem nas oficinas, escritórios, almoxarifados e
nos pátios, é isso?
– Isso mesmo, amigo. Parece que estamos com nossos dias
contados.
A velha maria-fumaça não acreditava no que estava
ouvindo. Aqueles homens, então, vieram até ali para dar início a um processo
que ela não sabia ainda onde terminaria, mas que a preocupava. No seu íntimo,
algo lhe dizia que, a partir daquele dia, muita coisa iria mudar. E no seu
pressentimento, mudar para pior.
Autor: Ayrton
Corrêa – Adaptação de trecho do livro "Pátio Esperança", publicado em
2017, pela Editora Clube de Autores.

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