quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 Pátio Esperança - A chegada da Velha Senhora

O Pátio Esperança resistia ao desmanche, sucateamento e desativação a que era submetida grande parte da malha ferroviária, por ocasião da privatização/desativação da ferrovia.

 








Um dia, chega para morar no pátio uma locomotiva. Das antigas. Daquelas movidas a lenha. Forte e ainda muito elegante. Fora trazida à noite e colocada sobre os trilhos, entre as máquinas mais modernas e os vagões. Estava em terra estranha. Não lhe disseram por que teve que deixar a moradia que ocupou por muito tempo.

Cuidava-se muito bem. Parecia mais nova do que realmente era; com seus metais muito bem lustrados, contrapondo o amarelo e o bronze de seus detalhes com seu corpo bem delineado e em metal de cor mais escura. Elegante, com seus óculos de aros finos e dourados, presos a uma corrente de ouro; um lenço de seda ao redor do pescoço e um xale elegantemente jogado sobre os ombros.

Dona de uma sabedoria sem par e igualmente humilde, como puderam constatar com o tempo, irradiava otimismo e simpatia. Conquistou a todos, logo na chegada, despertando admiração. Ficou muito feliz quando lhe pediram consentimento para chamá-la de vovó.

 Não poderiam me proporcionar maior felicidade. Recém-chegada, estranha, vinda vocês nem sabem de onde, já com o privilégio de ser tratada com tanto carinho. Vocês são uns amores, meus netos queridos.

Autor: Ayrton Corrêa – Adaptação de trecho do livro "Pátio Esperança", publicado em 2017, pela Editora Clube de Autores.

 

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