Pátio Esperança - Um pouco da história de Zé do Apito (8)
O Pátio Esperança resistia ao desmanche,
sucateamento e desativação a que era submetida grande parte da malha
ferroviária, por ocasião da privatização/desativação da ferrovia.
Era exatamente o que ele queria. Adorava contar
histórias, ainda mais quando lhe pediam. Pigarreou para limpar a garganta,
arrumou o colarinho puído da surrada camisa, bateu a poeira do boné, ajeitou-se
no dormente que lhe servia de banco e, depois de alguns segundos de silêncio,
como se estivesse ordenando os fatos na ideia, pôs-se a falar.
Minha família era quase que inteira ferroviária e, por
isso mesmo, nasci e sempre morei perto da linha de trem. Cresci vendo trem e
ouvindo o barulho que ele produzia e que ecoava pelos poucos e todos os cômodos
da casa da turma em que morava. Aprendi a identificar, apenas pelo som, o tipo
de locomotiva e de vagão, antes mesmo que despontassem na curva e sempre tive
comigo mesmo que, na primeira oportunidade, contaria pra todo mundo a experiência
que essa vida me proporcionou. Estou muito velho para escrever um livro e, além
do mais, muito mal sei assinar meu nome, mas tenho certeza que os mais novos
passarão esses causos pra frente e, quem sabe um dia, eles viram livro.
Os olhos dos mais novos que o rodeavam estavam brilhando
de ansiedade pelo começo da narração e orgulhosos com a incumbência que
acabaram de receber. Com certeza, era a eles que seu Zé estava se referindo
quando disse que “os mais novos passarão esses causos pra frente”. Tinham que
prestar muita atenção e não perder um só detalhe. Aproximaram-se bem e aguçaram
todos os seus sentidos.
Autor: Ayrton
Corrêa – Adaptação de trecho do livro "Pátio Esperança", publicado em
2017, pela Editora Clube de Autores.

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