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| Sr. Rafael Barranco |
Do telhado, os alto-falantes espalham música pelo ar. Pontual e ansiosamente esperada.
Por trás das grades baixas e de madeira, fixados na parede, cartazes e fotografias. Na calçada, a fila. Dinheiro nas mãos e a espera aflita pela abertura da bilheteria. Corações acelerados.
Lá dentro, depois da cortina cor de vinho da entrada, o salão. Embora familiar, parece mágico a cada domingo. Um verdadeiro mundo encantado. Corredor longo e estreito, ladeado pelas fileiras de assentos de madeira-verniz-escuro, findando nas portas de um bar e banheiros. À esquerda, masculino. À direita, feminino. No centro, o bar. Ao alto, sobre essas portas, uma enorme cortina, também cor de vinho.
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| Avenida Rubens Caramez - Itapevi - SP |
Aos poucos os que estavam na fila vão entrando e tomando lugar. Os casais de namorados procuram as últimas fileiras. Nas do meio, os adultos. E, lá na frente, a garotada. Ruidosa e sem parada. Circulando entre os assentos, trocando seus gibis. Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Zorro...
De repente, a música tema do filme "A ponte do Rio Kway", invade o salão. Correria generalizada. Todos aos seus lugares. Luzes do teto apagadas. Lentamente, como que num passe de mágica, a cortina começa a se abrir do centro para as laterais. Gritaria e assobios. Olhos fixos. Sem piscar.
Fecham-se as cortinas da entrada e do bar. Apagam-se as luzes das paredes. Silêncio. Um clarão incomoda a cada vez que a cortina da entrada é afastada para a passagem de um retardatário. Sobre as cabeças, um facho de luz vindo lá do fundo ilumina a tela branca. O Seu Rafael acaba de ligar os projetores. Lá fora, o Seu Pereira encerra a venda de ingressos. Dona Julinha fecha o bar. As primeiras imagens começam a se definir. Canal 100, documentários, trailers e... o seriado. Como novela, em capítulos, termina sempre com o mocinho em perigo.
Intervalo. Bar; banheiro; mais trocas de gibis; o filme do dia. “Fim!” Acendem-se as luzes.
Final de tarde. Música no ar, cenas dos filmes na lembrança. Adultos, jovens enamorados e meninos com gibis em baixo dos braços tomam diferentes rumos, cada um para seu destino. Em comum, muita alegria.
Todos os domingos essas cenas, parte da vida da cidade, se repetiam.
Um dia os alto-falantes se calaram. Cartazes e fotografias, não mais. A bilheteria não se abriu. As cortinas cor de vinho aguardaram inutilmente que viessem movimentá-las. As luzes não se acenderam. As cadeiras madeira-verniz-escuro continuaram com seus assentos levantados. O facho de luz encolhido no projetor. A tela branca, no escuro. A fila faltou. O Cavaleiro Negro, o Zorro e o Flecha Ligeira não saíram de suas casas. As últimas fileiras, vazias. As do meio também. Em comum, muita tristeza. O Cine São Manoel fechou suas portas... para sempre.




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