sábado, 5 de novembro de 2011

INDO A PÉ PRA COVA - UMA PAUSA PRA REFLEXÃO

A propósito do Dia de Finados

No meu tempo, enterro chegava quase a ser motivo de comemoração entre a molecada. Isso quando o falecimento acontecia na casa dos outros, é claro. Pimenta nos olhos do vizinho é refresco. Até criança sabe disso. Portanto, a euforia era disfarçada. Medo do defunto e medo dos cascudos dos vivos.
A notícia estourava como uma bomba. “Morreu fulano de tal”. Para os adultos, o sentimento de perda. Para as crianças, a perspectiva inocente de diversão.
O velório acontecia na casa do morto e varava a noite. Os mais próximos não arredavam pé da sala e nem pregavam os olhos. No quintal, o grupo de amigos e conhecidos, conversava animadamente. Falava-se de tudo e de todos. A noite era longa e as anedotas, vez ou outra, espantavam o sono. Os comes e bebes eram servidos de tempo em tempo. De vez em quando, também, um gole da “branquinha” para esquentar o frio ou refrescar o calor.  
Café forte passado no coador de pano. Pedaços de bolo na bandeja forrada com guardanapo xadrez. Pão com carne moída ou mortadela. A variedade dependia das posses do finado.
Lá pelas tantas, um grupo de bem intencionados cuidava de encomendar a alma do falecido. Mais tarde, lá pelas outras tantas, muitos iam dormir. Descansar um pouco.
E, no dia seguinte, estavam de volta. Para o café da manhã e mais uma dose de solidariedade. Acreditem, na hora da saída havia até disputa para decidir quem pegava na alça do caixão. Faziam revezamento!
As crianças, por sua vez, estavam espertas. Tinham dormido bem a noite toda. Preparadas e ansiosas para acompanhar o enterro, procuravam saber a hora em que o caminhão chegaria. – Que caminhão? – O caminhão que levaria o caixão e os acompanhantes até o cemitério da cidade, oras!  – Vai me dizer que você não sabia que o morto ia de caminhão! Não é possível!
Isso mesmo. Sempre havia uma alma caridosa, um caminhoneiro que oferecia carona ao defunto e a seus acompanhantes. Para os mais velhos, bancos de tábua presos às grades laterais da carroceria. A criançada se virava. Ia em pé, se equilibrando, em volta do falecido.
A chegada do caminhão provocava um grande alvoroço. Nem bem uma das grades era aberta e a molecada já estava a postos. Se dormissem no ponto, não conseguiam o melhor lugar da carroceria. O da frente. Perto da cabina. Além do vento na cara, dava até para ver o motorista dirigindo pelas curvas da estrada que levava ao cemitério. Devagar. Afinal, pra que pressa?
Isso tudo, pessoal, quando eu era criança. Agora é diferente. Dia desses fui ao velório de uma pessoa muito querida na região. Aliás, passei por lá. Fiquei alguns minutos e fui cuidar da vida. O enterro seria no dia seguinte. Quando eu saí, havia não mais que meia dúzia de pessoas guardando o morto. Na hora do enterro lá estava eu de novo. A mesma meia dúzia da noite anterior e mais outra meia dúzia de gatos pingados. Quem fez uma visita rápida, no velório, com certeza deu a obrigação por concluída. Pra que voltar para o sepultamento? Sabem que alguém levará o defunto para a sepultura. – “Quem foi, foi. A vida segue em frente. Tenho mais o que fazer” – devem pensar.
Na semana seguinte, a missa de sétimo dia. Olha lá eu outra vez. A meia dúzia do velório, mais a meia dúzia de gatos pingados do enterro e outra meia dúzia que, para desencargo de consciência, resolveu marcar presença.
E eu fico pensando, quase preocupado: do jeito que a coisa anda, logo não haverá quem carregue o caixão. O que tranqüiliza um pouco é que, nos tempos modernos, o velório é feito no cemitério. Dali para a cova é um pulinho. Se não tiver quem leve, o finado pode até ir a pé.

4 comentários:

  1. ksksks...a pé??? se eu tiver que ir a pé para minha cova, passarei antes na casa de certas pessoas para cobrar a visita...ksksksks.

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  2. Não sou do tempo do caminhão, mas daqueles carros fúnebres todo acortinado aonde o defunto ia bem à vista de todos. Cidade grande é outro papo....rsrsrsr.
    Achei legal essa idéia de "ir a pé pra cova". Afinal, quem nos dias de hoje tem tempo para enterro????
    Valeu amigão. Parabéns e um forte abraço.
    Zé Wilson

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  3. Eu participei muito de "enterros" de cidade pequena....rsrsrsrsr. Como se comia!! Ah! prá passar o tempo também jogávamos bolinha de gude no quintal da casa do defunto, que era de terra batida. Quanto a ir a pé prá cova...! Não sei! Eu ia prá qualquer lugar menos prá cova!

    Pedrinho

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  4. Esta coluna foi publicada ontem, 08/11, e achei que tem tudo a ver com o tema:

    CARLOS HEITOR CONY

    Demasiadamente humano

    RIO DE JANEIRO - A crônica que escrevi para a Ilustrada na última sexta-feira ("O homem terminal") provocou, como eu esperava, muitas mensagens, algumas a favor, outras contra o assunto que abordei. Destaco e transcrevo a mensagem via e-mail recebida do leitor Gilberto de Mello Kujawski, autor de "Machado de Assis por Dentro":
    "Sem querer, você repete Heidegger no que ele escreve a respeito da morte, tema importante de seu livro 'Ser e Tempo'. Com furor teutônico, o filósofo alemão declara que a morte é constitutiva da existência.(...) Trata-se do 'existir' chegar ao seu fim, aquilo que Heidegger chama de 'Sein zum Tode'.
    Costuma-se traduzir esta expressão como "ser para a morte", que não tem muito sentido. A melhor tradução é a seguinte: 'Estar à morte'. Estamos à morte desde que nascemos, não só quando vamos para a UTI. Nisso consiste o 'Sein zum Tode' heideggeriano. Coincide com suas palavras: 'Somos todos terminais desde que nascemos'."
    Apesar de seu passado polêmico, acusado de ter sido membro do Partido Nazista, considero Heidegger o maior filósofo do nosso tempo, no mesmo patamar de Descartes lá atrás.
    Quanto ao assunto em si, poderia citar outro filósofo, também de minha predileção, o grande Santo Agostinho, um dos mais importantes da humanidade: "A vida não é mortal, a morte é que é vital".
    Uma leitora narra a morte de sua cadela, que, de repente, parou de respirar. Conclui que os animais sabem quando é preciso morrer. Ao sentirem que chegou a hora, os cavalos procuram o lugar onde nasceram, fechando o ciclo do existir.
    O final da "Nona Sinfonia", de Beethoven, é a prova definitiva da existência de um gênio. Reconheço que o assunto desta crônica não é prazeroso, mas é humano, e como dizia Nietzsche, demasiadamente humano.

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