Meio-dia. Hora esperada com ansiedade. A garotada com seus pedaços de paus aguarda em volta do poste de madeira o momento de desamarrar e descer o boneco feito com roupas velhas, recheadas com palha e pedaços de papel.
Na cabeça, representada por uma bola de pano com nariz, olhos e boca pintados, um chapéu.
Sentados no chão de terra batida, contávamos os segundos. Afinal, foram quarenta dias de abstinência e alguém tinha que pagar o pato. Quarenta dias sem música, sem jogos, sem brincadeiras barulhentas e com jejuns. As energias estavam à flor da pele.
Na quinta-feira anterior, depois de uma jornada de trabalho ajudando a família Braga a empilhar tijolos na olaria ou a debulhar milho na chácara dos “italiano”, a reunião para a confecção do boneco. Para o paiol, cada um levava uma peça de roupa e pedaços de papel.
Sentados em uma enorme pilha de espigas de milho, íamos dando forma à figura do judas. Um enchimento aqui, outro acolá. Uma camisa, uma calça, um paletó e uma gravata davam o arremate. Costura era tarefa para a dona Luci. Agulha não era coisa para crianças.
Com pequenas paradas para um pedaço de bolo de fubá ou bolinhos de chuva, o trabalho seguia em ritmo acelerado. Não podia passar da meia-noite, pois na Sexta-Feira Santa essas atividades não eram permitidas.
Finalmente o boneco estava pronto. Já noite, depois que a rua estava deserta, corríamos para amarrá-lo ao poste. Sempre o mesmo poste. Aquele que ficava perto do bar da escadaria. Aquele por onde passava a maioria das pessoas que chegavam ou saíam da vila.
Éramos todos crianças. Queríamos apenas, de uma forma ainda inocente e divertida, comemorar a Ressurreição de Cristo.
Neste Sábado de Aleluia estive na mesma rua. Poucos minutos para o meio-dia. As pessoas que passavam não entendiam ao me ver parado, olhando para um poste vazio. Não havia crianças. Não havia boneco. Não havia comemoração. Apenas eu. Eu e um poste na rua do bar da escadaria...


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