quinta-feira, 12 de julho de 2012

LUZ! CÂMERA! AÇÃO!

Rua Rio Branco - Jardim Portela - 1977
             Lembro-me do tempo em que meu bairro, o Jardim Portela, não tinha luz elétrica. Depois, graças aos esforços de alguns moradores, a luz foi ligada nas casas. As ruas continuaram às escuras.
Antes da lâmpada, reinavam a lamparina, a vela e o lampião de querosene. Sofriam as paredes com a fuligem que esse tipo de iluminação deixava. Rastros negros em direção ao teto. Subindo pelo reboco ou pela madeira do batente.
Lampião a querosene
Na caça às rãs, o lampião de carbureto e, na casa do seu Lino,  onde hoje mora minha amiga Maura, um lampião de gás. Um exagero de claridade!
Nas ruas – estreitos caminhos em meio ao matagal habitado por cobras, preás, tatus, pássaros e...assombrações – a luz da lanterna a pilha encantava. Objeto raro. O seu Rafael tinha uma. 
Empunhando o farolete, a gente, ainda criança, se enchia de coragem e tomava a frente do grupo. Mato fechado. Impossível enxergar um palmo adiante do nariz. Era tarde da noite. Final de mais uma sessão de cinema.
O farol prateado, com energia da bobina acionada pela roda dianteira, posava majestoso no guidão da bicicleta do tio Dito. Varava o breu com sua luz amarela. Iluminava quando em movimento. Parou, não se via mais nada.
Farolete a pilhas
E a escuridão era tanta que a luz azul da lua podia ser percebida. Por incrível que pareça, até os vaga-lumes faziam diferença. Aliás, vocês têm visto algum vaga-lume por aí? Bichinho simpático, não?
Para os morcegos, corujas e outros animais de hábitos noturnos não poderia haver condições melhores.
Dínamo para farol de bicicleta
Não consegui apurar em detalhes, mas conta-se que houve uma época em que as primeiras casas do bairro recebiam energia elétrica da fábrica de vinho. Isso bem no antigamente. Muito provavelmente na década de cinqüenta.
Depois veio a iluminação pública. O número de casas aumentou. Cada canto um bico de luz para iluminar o quintal. O lampião e a lamparina foram para o porão. O maço de velas foi para a gaveta. O lampião de carbureto perdeu sua utilidade, pois o brejo foi aterrado e as rãs se mudaram. A luz do lampião de gás se enfraqueceu diante das lâmpadas incandescentes de muitas velas. O mato veio abaixo; os bichos se assustaram; o farolete foi aposentado e a bicicleta não precisou mais de farol. Os vaga-lumes, acredito, foram mostrar seu pisca-pisca em outras paragens. As assombrações pararam de assombrar e a luz da lua deixou de ser percebida.
Farol de bicicleta
E da luz para as câmeras dou um pequeno salto, nesse texto copiado de um e-mail que recebi do Dr. Cid Manoel de Oliveira, em março de 2005:
 “Itapevi era então um vilarejo... A luz de suas poucas ruas era ligada e desligada, diariamente, pelo ‘Seu Pereira’ (Manoel Ignácio Pereira) dono do único cinema que já funcionou em Itapevi, com a denominação de ‘Cine Teatro São Manoel’ onde suas ‘matinês’ e suas ‘soiires’ eram projetadas ‘nas alvas telas deste cinema’ (como era anunciado no serviço de alto-falante externo do cinema)”.
Sr. Rafael Barranco

E eu peço licença para acrescentar, apenas, que esse anúncio, no meu tempo, era feito na voz do seu Rafael Barranco, operador do cine São Manoel, e dono do farolete que mencionei lá no começo.

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