sexta-feira, 10 de agosto de 2012

VOCÊ VAI VER SÓ, MENINO!

_ Você vai ver só, quando seu pai chegar do serviço – ameaçava a mãe para intimidar o filho que teimava em desobedecê-la.
Ainda que o menino soubesse que não passava de ameaça, não se arriscava. Parava de fazer o que tanto estava desagradando sua mãe. Resmungava, saía devagarzinho, mas obedecia.
A mãe, por sua vez, dificilmente cumpria o que prometia. Fosse por pena do marido que chegava cansado depois de um dia inteiro de trabalho, fosse por medo de sua reação. Havia, também, a cumplicidade com o filho. No fundo, no fundo, nada era tão grave que merecesse ser levado ao conhecimento do pai.
Assim os dias se repetiam. A mãe ocupada com os afazeres de casa tinha pouco tempo para andar atrás do filho. Aliás, dos filhos. Rara a casa em que não houvesse pelo menos três ou quatro crianças.
Com as panelas no fogo, no preparo do almoço, ela se debruçava no tanque lotado de roupa. Tinha que aproveitar o tempo bom. E se chovesse à tarde? Não dava para se arriscar.
_Crianças, desçam daí. Vocês vão se machucar!
Em vão. Ninguém lhe dá ouvidos. Insiste mais algumas vezes e nada de ser atendida. Não tem jeito mesmo. Ameaça, mais uma vez, lembrando que tudo será resolvido quando o pai chegar do serviço.
A bagunça pára. Por alguns instantes se faz silêncio. Sabem que ela não contará nada ao pai. Mas, não é bom correr risco.
E o pai chegava, à tarde, à noitinha, cansado, querendo um banho e alguma coisa para matar a fome. Acho até que sabia que o dia da esposa não tinha sido fácil. Que as crianças tinham lhe dado muito trabalho. Mas preferia não interferir. Talvez, até por saber que a mãe não desejava essa interferência.
Era assim. E eu confesso que às vezes ia dormir emburrado. Dormia pensando que, quando eu fosse gente grande, faria tudo que me desse na telha.
Confesso, também, que pensei nisso mais de uma vez. Só não me passou pela cabeça, em nenhum momento, que, quando eu fosse gente grande, pudesse sentir tanta saudade daquelas ameaças.
Feliz dia dos pais!

Um comentário:

  1. Sua sensibilidade, amigo, é algo que o precede em tudo que escreve... Ah, claro, feliz dia dos pais!!!!!!!!!!
    Valquíria

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