É difícil
escrever sobre o Natal. Toda vez que tento, o texto ganha um toque de tristeza.
Saudade, talvez. De tempos melhores, de pessoas que se foram, de momentos que
marcaram.
Natal fala de
Papai Noel, de crianças e de presentes. Papai Noel que pula alguns endereços.
Presentes que podem ser vistos apenas através dos vidros. Crianças que já
cresceram e ganharam outros rumos. Até a música de Natal me parece temperada
com uma dose de nostalgia.
Por isso, esse
ano resolvi mudar o assunto. Comemorar o Carnaval. Isso mesmo, antecipar a
festa de Momo em alguns meses. Lembrar dos carnavais dos velhos tempos. Dos
salões, dos blocos e cordões. Festa popular e sempre muito alegre. Quem sabe,
assim, eu consigo um texto mais leve e, por conseqüência, de leitura agradável.
Vou deixar o Natal de lado. Daqui pra frente, vou esquecer essa data por
completo. Pretendo falar apenas dos carnavais da minha infância.
Na minha vila,
os enfeites e as músicas anunciam as festas. No rádio, as marchinhas de letras
curtas e fáceis de decorar. Nas lojas, com fundo musical, os apetrechos enchem
as vitrinas. Bolas de vidro, coloridas e dos mais diversos modelos. No balcão,
os pinheirinhos artificiais. Nas casas,
os pisca-piscas alegram a garotada e o presépio enfeita o canto da sala.
No Grêmio, o
Papai Noel se destaca em seu uniforme vermelho. A barba longa e branca cobre
parte da barriga avantajada. Ternura no sorriso e paz no olhar, enquanto
arremessa a serpentina que cruza o salão. No palco, o regional ataca de frevos
e marchinhas. Os foliões pulam freneticamente na marcação do bumbo.
Nas casas
vizinhas, as crianças também se preparam. Enchem de capim os sapatinhos
surrados. Comida para as renas do Bom Velhinho que, em meio da noite, vem
deixar seus brinquedos. Dizem que ele desce pelas chaminés. E aí a dúvida: quem
não tem chaminé não ganha presente?
No chão
forrado de confete, os passos cadenciados dos dançarinos. Na matinê a criançada
se diverte. Depois das seis da tarde é a vez dos adultos. A fila na bilheteria
promete casa cheia. A cada um que passa, o boas-festas do porteiro. No meio da
sala, a mesa com toalha de sininhos está pronta para a ceia. Apenas aguarda o
pessoal que vem da Missa do Galo.
Ansiosos, os
pequenos querem ir para a cama. Sabem que o Papai Noel está a caminho. Na
bagagem, brinquedos da época. Apitos, máscaras, lança-perfumes, confetes e
serpentina. O bloco está para sair às ruas. O Rei Momo vai à frente e as
crianças exibem o brinquedo que ganharam na noite anterior. É o carnaval em
seus três dias de folia ou é o Natal em sua única noite de magia? Parece que
estou meio perdido. Acho que fiz uma pequena confusão. Ou melhor, acho que
percebi o quanto é difícil falar de outros assuntos em época de Natal. Já ouviram
falar de espírito natalino? Pois é, talvez seja a explicação para essa
dificuldade. Mas eu sou teimoso. Continuo insistindo e resistindo. Não me dou
por vencido e vou terminar falando só de carnaval, desejando a todos muita
folia, um Feliz Natal e um Ano Novo de muitas realizações.




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