Aquele é o cantinho preferido do meu
pai. Aquela é a cadeira preferida do meu avô. Minha mãe adora ficar horas
sentada na varanda.
Quem ainda não ouviu essas frases?
Elas são ditas com muita naturalidade, como se as pessoas, depois de uma certa
idade, adotassem espontaneamente um cantinho pra chamar de seu.
Não foi sempre assim. Tempos atrás,
todos os cantos da casa eram freqüentados e preferidos por elas. Viviam
zanzando por todos os lados; arrumando aqui, limpando ali, enfeitando acolá ou,
simplesmente, usufruindo da tranqüilidade e paz que somente o ambiente de um
lar pode proporcionar.
Mas o tempo foi passando e, com ele,
chegando a velhice. Aqueles que, antes, eram úteis em suas andanças pela casa,
passam, gradativamente, a atrapalhar o vai e vem desenvolto dos mais novos.
Não bastasse apenas o passar do tempo,
a modernidade chega contribuindo, involuntariamente, para a inutilidade
prematura de nossos velhos. Não precisamos mais deles para o preparo de nossa
refeição. Basta uma ligação para um atendimento “delivery” ou um simples
apertar de botões em um microondas e a mesa está posta. Nossas roupas? Não nos
preocupemos, a lavanderia retira e entrega tudo muito bem arrumado. Até faz
pequenos reparos ou ajustes e prega botões.
E aí, o andar desajeitado pela casa ou
sentar-se em um canto qualquer, para descansar, começa a se tornar proibitivo.
Enroscar os pés em um tapete pode trazer aborrecimentos para muita gente; a
forma atabalhoada de comer uma fruta ou outra guloseima qualquer exige que isso
seja feito sempre e apenas em seu cantinho. Sabe, aquele cantinho que se ficar
um pouco sujo não tem importância, pois quase ninguém mais o frequenta?
Se a casa é pequena, o cantinho
obrigatoriamente fica perto das demais dependências, o que ainda permite que
seu ocupante “participe”, vez ou outra, de um pedacinho de conversa.
Se a casa, porém, é grande, o cantinho
fica tão afastado que, aos poucos, quem nele está isolado, vai se
desatualizando dos assuntos do dia a dia.
E aquele cantinho preferido, por mais
confortável e equipado que seja – alguns têm televisão, rádio e uma bonita
vista do jardim – é um cantinho silencioso, carente do ruído de vozes, desejoso
do som da conversa das pessoas queridas. Um cantinho para meditação; para
reflexão. Um cantinho feito para ser exclusivo, como se a solidão precisasse de
exclusividade.

É, Ayrton... dia a dia lá se vão os vestígios da transmissão oral de saberes... como era bom ouvir as histórias das bocas dos mais velhos. Hoje, os filhos não tem sequer paciência pra um almoço de domingo na casa dos avós... Lá se vão, pois, nisso, os vestígios de nós mesmos... Valquíria Gesqui Malagoli
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