sábado, 27 de abril de 2013

CANTINHO PREFERIDO


Aquele é o cantinho preferido do meu pai. Aquela é a cadeira preferida do meu avô. Minha mãe adora ficar horas sentada na varanda.
Quem ainda não ouviu essas frases? Elas são ditas com muita naturalidade, como se as pessoas, depois de uma certa idade, adotassem espontaneamente um cantinho pra chamar de seu.
Não foi sempre assim. Tempos atrás, todos os cantos da casa eram freqüentados e preferidos por elas. Viviam zanzando por todos os lados; arrumando aqui, limpando ali, enfeitando acolá ou, simplesmente, usufruindo da tranqüilidade e paz que somente o ambiente de um lar pode proporcionar.
Mas o tempo foi passando e, com ele, chegando a velhice. Aqueles que, antes, eram úteis em suas andanças pela casa, passam, gradativamente, a atrapalhar o vai e vem desenvolto dos mais novos.
Não bastasse apenas o passar do tempo, a modernidade chega contribuindo, involuntariamente, para a inutilidade prematura de nossos velhos. Não precisamos mais deles para o preparo de nossa refeição. Basta uma ligação para um atendimento “delivery” ou um simples apertar de botões em um microondas e a mesa está posta. Nossas roupas? Não nos preocupemos, a lavanderia retira e entrega tudo muito bem arrumado. Até faz pequenos reparos ou ajustes e prega botões.
E aí, o andar desajeitado pela casa ou sentar-se em um canto qualquer, para descansar, começa a se tornar proibitivo. Enroscar os pés em um tapete pode trazer aborrecimentos para muita gente; a forma atabalhoada de comer uma fruta ou outra guloseima qualquer exige que isso seja feito sempre e apenas em seu cantinho. Sabe, aquele cantinho que se ficar um pouco sujo não tem importância, pois quase ninguém mais o frequenta?
Se a casa é pequena, o cantinho obrigatoriamente fica perto das demais dependências, o que ainda permite que seu ocupante “participe”, vez ou outra, de um pedacinho de conversa.
Se a casa, porém, é grande, o cantinho fica tão afastado que, aos poucos, quem nele está isolado, vai se desatualizando dos assuntos do dia a dia.
E aquele cantinho preferido, por mais confortável e equipado que seja – alguns têm televisão, rádio e uma bonita vista do jardim – é um cantinho silencioso, carente do ruído de vozes, desejoso do som da conversa das pessoas queridas. Um cantinho para meditação; para reflexão. Um cantinho feito para ser exclusivo, como se a solidão precisasse de exclusividade.

Um comentário:

  1. É, Ayrton... dia a dia lá se vão os vestígios da transmissão oral de saberes... como era bom ouvir as histórias das bocas dos mais velhos. Hoje, os filhos não tem sequer paciência pra um almoço de domingo na casa dos avós... Lá se vão, pois, nisso, os vestígios de nós mesmos... Valquíria Gesqui Malagoli

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