A noite não
terminou como haviam planejado. Estavam chegando ao pátio da delegacia do
bairro, enquanto o relógio marcava um pouco mais de onze horas.
Desceram do carro e caminharam alguns poucos metros até o prédio que, a
essa hora, já não tinha movimento algum. Entraram, olharam para os lados,
ninguém à vista.
O rapaz tomou iniciativa e com toques tímidos no balcão arriscou chamar
por alguém. Depois de alguns minutos vem, der uma porta ao fundo, uma figura
sonolenta e com cara de poucos amigos.
Boa noite, arriscaram em uníssono. Boa noite, ouviram de volta,
surpresos. O que vocês querem? Bem, nós fomos assaltados; fomos vítimas de um
arrastão em um restaurante, em pleno centro da cidade.
Lenta e preguiçosamente o atendente juntou a papelada espalhada em uma
das mesas, jogando tudo desordenadamente numa gaveta. Ato contínuo, ligou o
computador e, enquanto a máquina esquentava, ele palitava nojentamente seus
dentes amarelados, com certeza, pela nicotina.
Esparramou-se na cadeira e partiu logo para a inquirição. Como e onde
aconteceu tudo? O rapaz começou a falar, procurando relatar da forma mais
sucinta possível, com medo da tradicional observação “responda somente ao que
lhe for perguntado”.
Ao final, imprimiu algumas vias do boletim de ocorrência – BO, para os
íntimos – e mandou que ambos as assinassem. Estavam quase saindo, quando o
indivíduo perguntou “mas me digam, que diabos vocês tinham que estar fazendo em
um restaurante, em um sábado, a essa hora? É dar muita sopa ao azar, concluiu.”
Sabem, eu registro as mais diferentes ocorrências nessa delegacia. Moto e
carros, levados por assaltantes. Celulares e aparelhos eletrônicos roubados em
lugares movimentados. Casas invadidas em plena luz do dia. Também, me digam,
porque ficar andando por aí ostentando objetos que despertam a cobiça desses
bandidos?
Tiveram a impressão, ainda, que o ouviram resmungar: “Bem feito! Fizeram
por merecer”.
Em casa, resolvem ver um filme para relaxar. Dão de cara com um jornal,
no momento em que o apresentador divulga o resultado de uma pesquisa. “Uma alta
porcentagem dos entrevistados dizem que, no estupro, a mulher é culpada, porque
usa roupas provocativas.”
Já pensou, diz o rapaz, o que diria o atendente daquela delegacia, ao
fazer um BO de um caso desses? “Se dependesse de mim, a senhora ficaria detida
por alguns dias, pra aprender a não ficar por aí mostrando quase tudo, provocando
os homens. Se estivesse com roupas mais decentes, nada disso teria acontecido.
E ainda tem a desfaçatez de colocar a culpa no pobre do estuprador, veja só!”
E, com certeza, resmungaria: “Bem feito! Quem mandou provocar?”

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