MELHOR PRA
QUEM?
N
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aquela noite, resolveram me levar a uma festa. Disseram que minha presença
seria muito importante. Acho que era desculpa para que eu não ficasse sozinha.
Depois que eu tive uma pequena indisposição e fiquei uns dias internada,
passaram a se preocupar comigo. Bobagem, hoje com meus 85 ou 92 anos, não sei
bem ao certo, ainda tenho uma saúde de ferro. Para que façam ideia, daqui a
seis ou sete meses, se não me falha a memória, completo mais um ano de vida e,
até agora, que me lembre, nunca tive mais que um simples resfriado.
Vai logo, menino,
ajude sua avó a se levantar. Seu pai já está lá embaixo esperando.
Nem bem terminada
a ordem, um garoto crescido me pegou firme, quase arrancando meu braço e, como
se levantasse uma pena, me colocou em pé no meio da sala.
Era um de seus
netos. Nem pergunte quantos ela tem, porque ficará sem resposta. Aliás, não
saberia dizer nem quantos filhos pariu em todos esses anos. Nunca foi muito boa
com números.
As mesas, com um
vaso de flores no centro da toalha de linho branco, estavam caprichosamente
distribuídas pelo salão. Alguém puxou uma cadeira e me colocou sentada.
Venham, crianças,
cumprimentem a vovó. Depois vocês brincam.
Fizeram fila. Era
criança que não acabava mais. Eu acho que eram todos meus netos ou bisnetos.
Não tenho muita certeza.
De onde eu
estava, tinha uma ampla visão do salão. Na mesa ao lado, uma garota de não mais
que vinte anos, saia curta, meias de renda, cabelos alaranjados e enfeites
espetados pelo nariz, lábios e orelhas, conversava, com expressão de enfado, ao
celular. À minha esquerda, um grupo de crianças brincava animadamente, correndo
e rolando pelo chão.
A garota do
celular agora tinha companhia. Seus amigos chegaram e ocuparam as outras
cadeiras. Ela, ainda falando ao telefone, gesticulou, cumprimentando-os. Eles
concentraram suas atenções no movimento ao redor. Olhem que velhinha bonitinha
sentada ali naquela cadeira!
Velhinha a p...
q... p... Quase soltei um impropério. Que jovenzinha atrevida! Onde estão seus
pais que não lhe dão educação? No meu tempo, as pessoas mais velhas eram tratadas
com muito respeito.
Mas os tempos
mudaram e a – com todo respeito – velhinha não conseguiu acompanhar. Uma das
últimas vezes em que, na companhia da filha, entrou em um ônibus ficou
boquiaberta quando foi apresentada ao banco de cor diferente, reservado para
uso preferencial de pessoas com necessidades especiais. No tempo dela, essa
preferência era ensinada no berço.
As pessoas à sua
volta conversavam animadamente. Falavam um pouco de tudo, riam muito e
misturavam tudo isso à música exageradamente alta que vinha de algum ponto da
sala. Vez ou outra, olhavam para ela, talvez para ver se não estava dormindo.
Quem? Suas amigas? Não, não vieram porque já se foram. Que conversa esquisita!
Mas nem tentou entender. Vamos, filho, ajude a vovó a se levantar. Pronto,
agora meu braço vai de vez.
Na mesa,
caprichosamente enfeitada, um lindo bolo com duas velas: 9 e 0. Ao fundo,
alguém puxou o coro: parabéns a você, nessa data querida... é pic, é pic, é
pic... E pra vovó, nada? Alguém pegou em minha mão para cortar o bolo, de baixo
pra cima, pra dar sorte.
Levaram-na de
volta à cadeira e lhe puseram nas mãos um pratinho com um pedaço de bolo e
alguns docinhos. Quando pensou em pedir um copo d’água já não havia mais
ninguém prestando atenção nela. No meio do salão, sacolejavam o corpo, ao ritmo
frenético da música que, sem cerimônia, feria seus ouvidos.
Ao toque de uma
brisa fria, sentiu falta da manta que ficou sozinha em sua cadeira de balanço.
Devia tê-la trazido. Pensou em Sansão, seu gato persa. Será que ele está bem?
Não estaria com medo do escuro ou com fome? Lamentou não ter deixado o abajur
aceso e um pires de leite perto de sua caminha. Não sabia que demorariam tanto.
Experimentou um
pedaço de bolo e comeu um docinho. Sentiu a garganta seca. Suas pernas já
estavam dormentes de tanto ficar sentada. Devia ter trazido o banquinho para
apoiá-las; para facilitar a circulação. Que horas seriam? Quanto tempo mais
teria que ficar ali? Seus olhos teimavam em fechar. Costumava dormir cedo.
Saiu do cochilo
quando alguém lhe disse que iriam para casa; que a festa havia terminado.
Gostou da festa, mamãe? Quase respondeu, mas apenas pensou com seus botões. Que
festa? Estou com as costas e o traseiro doloridos de tanto ficar sentada nessa
cadeira dura. Com uma sede dos diabos, preocupada com meu gato e não vendo a
hora de esticar o corpo em minha cama macia e quentinha. Será que compraram meu
chá que estava quase acabando? Passaram o meu pijama? Perdi minha novela...
Estava maravilhosa, minha filha.
Sansão, querido,
desculpe a demora. Você está bem? A festa? Cá entre nós, estava louca pra vir
embora, para o sossego desse nosso cantinho. Por que não vim antes, então? Até
pensei em pedir para que me trouxessem, mas estavam se divertindo tanto que não
quis ser uma desmancha-prazeres. Além disso, por uma questão de educação, eu
devia esperar que cortassem o bolo da aniversariante. Hum, será que, com essa
justificativa, Sansão vai me perdoar?
E os convidados que iam saindo a cumprimentavam,
desejando-lhe felicidades.
Parabéns, vovó, por mais um ano na melhor idade.
Texto
publicado em 25/6/2011
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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