terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

DIA DE FESTA

Parece dia de festa. É dia de festa. Na estação da cidadezinha do interior, a conversa segue animada, misturando-se à gritaria e ao corre-corre das crianças. Crianças com roupas de festa.
Os meninos, de calças curtas e as meninas, de vestidos de chita, empoleiram nos rodapés, para enxergar do outro lado dos guichês. A borboleta-carrocel, tonta de tanto girar. O porteiro tolera, porque é dia de festa.
Deixam a roleta em paz e, num pega-pega festivo, levantam a poeira escondida entre a pedra britada que reveste o piso da plataforma. Desviam dos postes, pessoas e placas. Roupas irreconhecíveis. Cabelos desarrumados e rostos suados. Suados de felicidade.
Silêncio. Um apito, ao longe, avisa que está chegando a hora. Outro, dessa vez mais perto, confirma.
Atenções desviadas para a curva do pontilhão. O focinho da locomotiva aponta detrás do morro. O ranger das ferragens se junta à respiração ruidosa da velha máquina.
Devagar, o pequeno comboio se aproxima da estação. Os homens ensaiam uma fila. As crianças se dependuram no bolso dos paletós de seus pais. Curiosas, não querem perder um detalhe. Olhos brilhantes no bico brilhante do boné que se esconde atrás do guichê.
O trem pagador parte. A estação se esvazia. Volta ao normal.
Dia de pagar a caderneta. Doces para as crianças. Dia de festa. Dia de pagamento.

Um comentário:

  1. Sabe que consigo lembrar do trem pagador, principalmente dos envelopes onde o dinheiro era colocado, transparente (se não me falha a memória)onde para mim sobresaiam as notas de Cr$2,00 (?)por serem de cor amarelada. O dia de pagar a caderneta, nem se fala!Pagar o açougue!Será que por ser criança esses fatos marcaram tanto?

    Pedrinho

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