segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SE ESSA RUA FOSSE MINHA

A minha rua se chamava Rio Branco. Não sei se teve um outro nome antes desse. Hoje, ela se chama José Luiz Braga Filho. A minha rua era olhada de cima pelo bar da escadaria. Minha rua começava ali, na cabeceira do campo de malha e terminava na curva da fábrica de vinho Portela.
Arquivo: Ayrton Corrêa
Sei que vão dizer que ela continuava. Que dava a volta e terminava, na realidade, na Plaquinha, perto das caixas d’água que serviam a estação de trens.
Pra mim, no entanto, ela terminava na curva, perto da pedra grande. No caminho que dava no pontilhão, no cabo de aço. Depois da curva, do outro lado, era outra rua. Era a rua do Chiquinho, da Dione e do Adalberto. Era a rua da biquinha. Da biquinha abastecida pelo ladrão das mesmas caixas d’água.
A minha rua tinha poucas casas. A do Caipira, Zé Pintado, D. Norma, depois D. Tereza, D. Mira, D. Conceição, D. Maria do seu Joaquim, e, lá no alto do morro, seu Lino. Isso, do lado de cima. No lado de baixo, D. Glória, Tia Raquel, depois D. Dora e Vó Zefa.
A minha rua era apenas um caminho. Por onde passavam pessoas a pé, alguns animais e o carro de boi do seu Atílio. Mato e terrenos baldios dos dois lados. Árvores, frutos silvestres e muitas goiabeiras. Com goiabas de verdade. Brancas e vermelhas, com bicho e tudo. Amoras graúdas e muitos passarinhos.
Arquivo: Ayrton Corrêa
Na minha rua tinha a pedra ao lado da casa da D. Maria. As valetas por onde corria a água marrom da chuva pesada. Onde a gente, criança, brincava de fazer represas. Tinha a caixa d’água que abastecia a chácara. Caixa redonda. Parecia um queijo de concreto, à sombra da paineira. Lugar bom para se brincar.
Em junho, minha rua se transformava. Tinha bandeirinhas de papel de seda colorida. Barracas com armação de bambu e cobertas com lençóis de sacos de compra. Da compras que vinham do armazém da Sorocabana. A minha rua tinha ferroviários.
A minha rua tinha capim-gordura, vassourinha, carrapato, formigueiro, siriri e içá. Pau de pito, aroeira, mamona e cerca de taquara. A minha rua tinha tudo isso, até que um dia cresceu e se modificou. Ganhou ares de modernidade. Postes, luz elétrica, asfalto, mais casas. Mudou de cara, mudou de nome. Mudou de donos.
Sei que está em boas mãos. Mas sabem o que eu faria se, por apenas um dia, ela voltasse a ser minha? Por um dia, apenas? Eu lhe devolvia as pedras, o carro de boi, árvores e frutos silvestres, goiabeiras e carrapatos. Trazia de volta os terrenos baldios, valetas, enxurradas e a sombra da paineira. Ia buscar as barracas juninas, cercas de taquara, pau de pito, aroeira e os pés de mamona. Até os bichos das goiabas eu trazia de volta. Apenas por um dia.
Trazia de volta suas crianças, suas brincadeiras e aqueles que hoje são apenas saudade.  Parava o trânsito e o tempo. Brecava os ponteiros do relógio, apenas por um dia.
Ah, se essa rua fosse minha...

3 comentários:

  1. Jose Carlos Branco - Pena que esse tempo nao volta mais vai ficar na lembrança tudo que aprontamos nessa epoca e eram muito divertido mas oque importa e que vivemos o passado e estamos vivendo o presente

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  2. Quando leio um gibi do Chico Bento, aquele do Maurício de Souza,tenho a impressão que ele viveu no Jardim Portela! Todas as peripéçias que ele passa nas histórias em quadrinhos, nós já passamos! Também soltávamos papagaio (e não pipa!)em frente a casa do Tino, e não tinha essa de "cortante"! As festas juninas na Rua Rio Branco era o máximo, com sanfoneiro e tudo! Ainda bem que participei de tudo.


    Pedrinho

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  3. Que recordação linda...falou tudo. O tempo ñ para.

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