Eu estava fazendo uma daquelas limpezas de gaveta que vez ou outra achamos que são necessárias. Daquelas que servem apenas para mudar as bugigangas de lugar. Invariavelmente volta tudo para onde estava. Tudo e mais o que estiver dando sopa por perto.
De cara, achei algumas folhas de papel carbono. Escarafunchando a papelada, encontrei um carimbo datador, uma caneta de pena, uma folha de mata-borrão, um vidro de tinta para caneta e um vidro de goma-arábica.
Escarafunchando um pouco mais e, dessa vez a memória, lembrei de quando datilografava demonstrativo financeiro, em cinco vias. Uma folha original e quatro cópias intercaladas por papel carbono. Dá para imaginar o trabalho para corrigir um erro de datilografia? Um erro multiplicado por cinco!
E o carimbo, então! Com um mecanismo para atualizar a data. Em volta do dia, mês e ano, formando um círculo, o nome da empresa. Não me lembro o que era carimbado com ele.
Caneta de pena. Essa, se existir só em museu. Difícil até para descrever. Normalmente de madeira ou bambu, um pouco maior que um lápis. Em uma das extremidades, o encaixe para a pena de metal que, para escrever, tinha que ser molhada em tinta. Por isso, a existência do vidro de tinta para caneta. Pertinente, não?
Evidente que nem sempre a quantidade de tinta deixada no papel era adequada. E aí entrava o mata-borrão. Uma espécie de cartão que servia para absorver o excesso e evitar que o borrão acontecesse. Matava o borrão. Pertinente também, não?
A goma-arábica, uma cola amarela e que demorava um bocado de tempo para secar. Na própria tampa, como nos vidros de esmalte para unha, havia um pincel. Essa goma, dentre muitas outras utilidades, era usada para colar os selos das cartas. Depois inventaram aqueles que, com uma lambida, estavam prontos para colagem e, finalmente, os selos autocolantes.
Isso tudo antigamente, pois a modernidade se encarregou de mandar esses utensílios para a gaveta, para o lixo ou para os armários da lembrança. Viraram enfeites, peças de colecionadores. Alguns deles nem existem mais. Não funcionam. Ou penso que não funcionam.
Por que estou falando disso? Pois bem. Dia desses, relembrando da época de antes do microcomputador, contei, para exemplificar, que no meu tempo as cópias eram tiradas por um equipamento de nome mimeógrafo. Tive que repetir pausadamente: mi-me-ó-gra-fo. Movido à manivela e alimentado com uma mistura de álcool com tinta. Tinha certeza absoluta de que ali ninguém conhecia esse negócio de nome tão estranho. Por sorte, não fiz comparações e nem desmereci a tal máquina. Interrompemos nossa conversa. Depois continuaríamos.
O churrasco estava no ponto. O arroz soltinho, a maionese e o molho de não sei de quê – receita da minha prima, Leandra – estavam na mesa. O bate-papo, sem dúvida, podia esperar.
Já de estômago calçado, um passeio pela casa. Cada canto, cada ponto, um toque de bom gosto. E, em um dos cômodos, a surpresa. Meu primo, Márcio, aponta na direção de uma peça que eu pensei fosse decorativa. Um mimeógrafo! Verdade. Estão admirados com o quê? É isso mesmo. Ali na minha frente, olho no olho, inteiro e conservadíssimo, um mimeógrafo. E, pasmem, funcionando a todo vapor, ou melhor, a toda manivela. Trabalhando orgulhoso e sem se deixar inibir com a presença próxima de uma impressora multifuncional, com pose de moderninha.


Foi fundo dessa vez heim? goma arábica! caneta de pena, mimeógrafo! Mata borrão! E pensar que usamos toda essa parafernália! Será que estamos ficando velh...experientes?
ResponderExcluirUsei prá caramba o mimeógrafo, os outros itens. nem tanto!
Pedrinho
Lembro qud eu estudava na Tia Rosa, na Avenida Presidente Vargas (Itapevi), quando era mão dupla ainda, e a coisa mais gostosa era mexer no mimeógrafo. Nós alunos brigávamos quase a tapa para "copiar" os desenhos e tarefas de casa nesse aparelho arcaíco (que na época não era, claro!)
ExcluirAinda posso sentir o cheiro do alcool que isalava pelos quatro cantos da sala de aula.Que saudades!!!