sexta-feira, 16 de março de 2012

ROTINA DE CRIANÇA


“Eu daria tudo que eu tivesse. Pra voltar aos dias de criança. Eu não sei pra que a gente cresce. Se não sai da gente essa lembrança”
Esse é um trecho da música  “Meus tempos de criança”, de Ataulpho Alves.  Fala da saudade de um tempo especial na vida de todos nós.  Podem ser diferentes, mas, sem dúvida, tempos especiais.
Falar da infância que já vai longe é recorrer unicamente à memória. Criança não anota o que faz.  Não tem diário e muito menos agenda.  Criança não planeja. Criança simplesmente faz.  E eu, felizmente, não fui diferente. Guardo apenas lembranças.  Boas lembranças.
O dia começava cedo. No terreiro e na vizinhança, os ruídos próprios de uma cidade do interior, ou melhor, do bairro de uma cidade do interior.   Latidos, galos cantando, vozes dos vizinhos, galinhas ciscando no gramado em frente à janela do quarto, passos de animais na rua.  Passarinhos.  Muitos passarinhos.
Sabíamos distinguir cada um desses sons.  Eram nosso despertador.  Sem compromissos. Sem correria. Apenas a preocupação de como e por onde começar o dia.  Que brincadeira escolher.  Não importava se fazia frio ou calor. Os amigos estavam esperando.
Jogo de bolinha, pião, pega-pega, latinha, pipa, mocinho e bandido, boiada. Esta última só os meninos da vila conheciam.  Só na vila passava boiada.
Os carrinhos feitos de madeira ou de latas vazias percorriam as ruas, túneis e pontes escavados nos barrancos do então pequeno povoado.
Cabanas feitas de vassourinha ou de taboa.  Balanços de cordas enroscadas nas árvores.  As peladas nos campinhos feitos em meio ao mato. O jogo de malhas.  O descarregamento da boiada assistido do barranco que ficava dentro do mangueirão.
Se a fome apertava, uma fruta silvestre colhida aqui ou acolá.  Ou uma fruta da época, apanhada na chácara dos italianos. Uma entrada rápida em casa para pegar um pedaço de pão na sacola atrás da porta também resolvia. 
Não havia tempo a perder.  Os adultos diziam que a infância passa rápido. 
Nem a chuva atrapalhava. Se amanhecia chovendo, a diversão também estava garantida.  Todos na rua para brincar na enxurrada que descia pelas valetas.  A imaginação corria solta.  Represa, rio, lago, fonte, cachoeira.  Tudo era possível com a água misturada à terra que seguia ligeira rua abaixo.  Calção, a única peça de roupa.  Pés na lama e muita chuva na cabeça. 
Às vezes, no entanto, as ruas próximas às nossas casas ficavam pequenas diante de tanta energia. As lagoas formadas pelos barreiros das olarias e o rio que atravessava o bairro eram lugares preferidos nos dias quentes.  Pescar, nadar, mariscar, andar de barco feito com troncos de bananeira, mergulhar da ponte, descer o rio em bóias improvisadas. Matar a sede no córrego que atravessava a chácara do japonês, vindo se misturar às águas do rio. 
A noite chega. As crianças se recolhem.  Cansadas.  As ruas escuras caem no silêncio. Os lampiões de querosene iluminam os cômodos das poucas e espaçadas casas.  A vila se prepara para dormir. Às vezes ainda há tempo para as histórias de assombração contadas à pouca luz.
 Rotina.  Pura rotina.  Se me perguntarem se a infância daqueles tempos era melhor que a atual, não saberia responder.  Diria apenas que era diferente.

Um comentário:

  1. É isso mesmo amigo....simplesmente criança !!! Hoje meu neto do meio rabiscou meu sofá branco com caneta esferográfica...terei que trocar o couro porque não há o que limpe....chorei, mas tá feito....como vc diz: criança não planeja, criança simplesmente faz. Bjs e parabéns pelo texto.
    Mazé Conde

    ResponderExcluir

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...