Na minha casa, como nas demais casas do bairro em que eu morava, tinha um poço. Furado com enxadão e picareta.
Graças a ele, nunca soubemos o que era falta d’água. Bastava olhar. Se o nível estava baixo, gastava-se menos. O controle era nosso.
Um dia disseram que ele teria que ser aterrado. Que a água viria de uma grande caixa.
Água tratada. Era o progresso chegando.
Com muita tristeza, enchemos o poço de terra e mandamos balde e sarilho para o ferro velho. Daí em diante, não pudemos mais ver o quanto de água havia para gastar.
Hoje somos pegos de surpresa. A gota d’água, que substitui o jorro, avisa que a caixa está vazia. Avisa que chegamos no limite.
E a gota d’água, que cai, que enche, que transborda, que inunda, que destrói, que transtorna e que afoga, passou a fazer parte da nossa vida Aprendemos a conviver com ela, A gota d’água necessária, que salva, que alivia, que lava a alma.
A gota d’água que falta, que seca, que mata. Esperada, suplicada em preces. A gota d’água que move os retirantes, que aflige os corações.
À primeira vista, apenas uma gota d’água. Faltando ou sobrando, apenas uma gota d’água.
E a vida segue em frente, movida pela gota d’água que continua sendo a mesma. Discreta, sem chamar muita atenção, sem fazer falta... até faltar para sempre.


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