De que você tem medo? Essa era a pergunta. O grupo, em sua maioria, de crianças e jovens. Cada um devia ir lá na frente, onde estava a lousa e escrever. E as respostas começavam a surgir. A relação de coisas que causavam medo aumentava. Medo de ladrão, medo de sair à noite, do desemprego, da fome, da morte, de que acabem com a água do mundo, da extinção dos animais, da poluição, das enchentes, da seca.
Fiquei em um dos cantos da sala, só observando. Medo disso, medo daquilo. Enfim, muito medo.
A pessoa que comandava a brincadeira seguia animada. ‘Vamos, gente! Coragem! Quem mais quer vir aqui na frente?
Lá vai mais um, e mais um e um outro. E a lista aumentava. Eu estava vendo que a lousa não ia ser suficiente para tantos medos. Medo de seqüestro, medo do escuro, de altura, de dirigir na cidade, de terrorista, medo de sair de casa, de não conseguir o primeiro emprego.
Enquanto a brincadeira continuava, eu ficava imaginando como que aquelas pessoas, tão jovens, conseguiram acumular tanto medo. Ah, acho que sei. Eles lêem muito. Assistem televisão. Navegam pela Internet. Ouvem rádio. Mais que isso, prestam atenção no que acontece à sua volta. Uma bomba aqui, uma guerra ali, um assalto acolá, uma fila de desempregado mais à frente. Por mais boa vontade que tenham e por mais que forcem a imaginação, fica difícil enxergar beleza na rotina de seus dias.
Eu pensei que isso era coisa de cidade grande. Tanto medo em tão pouco espaço. Pensei, até que um amigo do interior me disse que lá, no cantinho dele, as coisas já não são como antigamente. Então eu vi que é tudo muito sério. E confesso que fiquei com medo. Medo de ter os mesmos medos daquelas pessoas que estavam brincando. Seriamente brincando.
Deixei meus pensamentos de lado e dei uma olhadinha lá na frente. Quase caí de costas. Encheram a lousa e estavam escrevendo nas paredes. Era medo que não acabava mais. Medo de não conseguir vaga na escola, medo de não ter dinheiro para a compra do supermercado, medo de Aids, de drogas, do futuro, do presente, de andar de avião, dos preços de tudo, do menino que vai armado para a escola, medo do pai da namorada, do irmão dela, medo de atravessar a rua, do estranho que está na esquina, do assalto ao banco, de ir à igreja à noite.
E eu, no meu canto, com medo que me perguntassem, apenas para animar a brincadeira, quais os meus medos, quando criança.
Eu também era medroso. Eu e meus amigos. Os caminhos que tínhamos que percorrer eram puro mato. À noite, não se enxergava um palmo adiante do nariz. Pudera, não tinha luz elétrica na nossa vila. Sair depois do pôr-do-sol era um ato de coragem. A noite tinha seus ruídos próprios. A coruja, o sapo, o grilo, e outros que às vezes não dava para identificar.
Medo, no entanto, apenas da mulher de branco. Diziam que ela tirara a própria vida às vésperas do casamento. E que não conseguindo descansar em paz, costumava acompanhar as pessoas pelos caminhos escuros. Silenciosa como toda boa assombração, era vista à distância. Apenas seguindo. Diziam que bastava olhar para trás e lá estava ela, em seu vestido de noiva.
Agora eu sei porque estava preocupado que me perguntassem sobre meus medos na infância. Apenas um motivo para ter medo. Era muito pouco para ser contado naquela sala. Quase nada.

Nenhum comentário:
Postar um comentário