domingo, 18 de novembro de 2012

ESTAÇÃO SAUDADE


O cenário não poderia ser mais desolador. O pequeno vilarejo, antes próspero, agora quase que totalmente abandonado. Nada mais prende ali seus habitantes. Aos poucos se mudam e deixam para trás parte de suas histórias.
Vieram em busca de trabalho e de um futuro melhor. Passaram ali quase que uma vida inteira. Do alto do morro, a igreja do santo padroeiro assiste, com tristeza, o movimento dos retirantes.
A pequena estação, ou melhor, o que dela restou, mistura-se às ruínas das casas de turma e ao silêncio do trem que não chega.
Alheias às coisas do passado, aquelas crianças saltam de dormente em dormente no leito abandonado da estrada de ferro. Não sabem que, em tempos idos, aqueles pedaços de madeira, hoje apodrecidos, sustentaram os comboios a caminho dos mais distantes rincões. Ouviram, de perto, o ranger das ferragens dos trens puxados pela locomotiva a vapor que, aos berros, pedia passagem e anunciava o avanço irreversível do progresso.
Agora, pouco se consegue ver da via férrea. Encoberta pelo mato alto, confunde-se com a paisagem e abriga, aqui e acolá, restos esqueléticos do que um dia foi parte de um trem. Uma locomotiva, um vagão ou um carro de passageiros. Irreconhecíveis e abandonados ao rigor da intempérie. Largados nos trilhos dos desvios, consumidos, aos poucos pela ação implacável da ferrugem.
As crianças seguem, indiferentes, seu caminho. Estão atrasadas para as aulas no grupo escolar próximo à igreja do morro.
À distância, Zé do Apito a tudo observa. Vê a alegria daqueles garotos saltando de um lado para outro, por entre os obstáculos, como se estivessem contando os passos e cercando o tempo, impedindo sua passagem.
 Seu Zé se lembra de quando também caminhara naquelas pegadas e lamenta-se por não ter conseguido cercar o tempo. Lamenta-se por tê-lo deixado passar. Enquanto a garotada se afasta, o vozerio se perde no ar, misturando-se aos pensamentos do Zé do Apito.
Todo dia a cena se repete. Os meninos passam por ali, alegres, falantes e despreocupados. Magricela, gordinho, baixinho, briguento, banguela, neguinho, china e o branco aguado. Iguais, apenas, no uniforme da escola, com suas calças azul-marinho-desbotado, camisa e meias branco-terra-encardido, sapatos esfolados de tanto chutar pedras e a pasta de couro com o material escolar, rodada no ar com displicência. Acenando, cumprimentam os poucos moradores do pátio. Pela plataforma, seguem na direção da escola. A passos lentos de quem não quer chegar.
Hoje, mesmo com a idade já pesando, Zé do Apito continua por ali. Ainda enverga o uniforme surrado de quando trabalhava na ferrovia. Na cabeça, o boné com as iniciais da companhia cobre seus cabelos brancos.  Seu Zé  passa quase que o dia inteiro cuidando da conservação da velha e depredada estação e dos pedaços da via permanente ao seu redor.
Arranca ervas daninhas, varre, capina, recoloca pedras sob os trilhos, movimenta e lubrifica as chaves de mudança de via, evitando que emperrem.
Aguarda, esperançosa e pacientemente, a passagem de um trem.
Olhos pregados no horizonte, procurando avistar um fio de fumaça que indique a aproximação da máquina a vapor. Ouvidos abertos, na expectativa do canto inconfundível do apito, avisando de sua chegada à pequena estação.
Nas horas vagas, seu Zé aproveita para conversar. Tem muitos amigos por ali. Fica horas trocando idéias com os dormentes, com as pedras e com os trilhos. Gosta de ouvi-los. Eles ainda se lembram de tudo. Afinal, foram os primeiros a chegar naquelas paragens.
Conversa bastante, também, com os carros, vagões e locomotivas que se consomem em ferrugem e saudades. Com as vozes embargadas pelos soluços e sufocadas pelo mato que lhes invade as entranhas.
Deles ouve muitas histórias sobre os diferentes lugares por onde passaram. Dos amigos que deixaram. São mais tristes. Falam com lágrimas nos olhos; saudosos de suas viagens e cansado por estarem tanto tempo inertes.
Mas Zé do Apito tem esperanças e procura animá-los.
_ Pessoal, é preciso ter muita paciência. A estrada de ferro está passando por uma fase difícil. Logo tudo se ajeita e vocês voltarão à circulação.
Eles acreditam. Afinal, seu Zé nunca lhes contou uma mentira. Enxugam as lágrimas e voltam a fazer planos para o futuro.
E os meninos somem de vista, encobertos pelos escombros da pequena estação.
 Saudade.


Um comentário:

  1. ayrton, que maravilhoso poema. você deveria encaminhar para a rede globo, pois estavam apresentado reportagens sobre ferrovia, recentemente. pode ser encaminhado até para um jornal....que poema lindo!!!!! saudades do zé do apito! sandrinha

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