quinta-feira, 1 de novembro de 2012

ESTAÇÃO DE TREM


         Pelo que sei, minha cidade nasceu em torno da estação de trem. Km 36 + 112 m da Estrada de Ferro Sorocabana. Estação de Cotia, depois Estação de Itapevi. De um lado, barrancos, brejo e o mangueirão de bois. O brejo ficava atrás da casa do chefe da estação. Do outro lado, a ponte de madeira, o rio Barueri Mirim, limpo e piscoso, e o espaço para uma praça, que a gente chamava de largo. Em volta do largo da cidade, o comércio. Farmácia, armazém, que a gente chamava de venda, loja, cinema, padaria, barbearia, banca de jornal, açougue, quitanda, bicicletaria, carvoaria e igreja. Tudo no singular. Um de cada. Dava e sobrava para a pequena população.
A estação se sobressaia na paisagem. A bilheteria, com seus guichês olhando para a passagem de nível, ficava entre dois portões grandes de tela e duas roletas. Portões para entrada e saída de carga. O acesso do usuário era feito por uma das roletas, depois de entregar o bilhete, que também era chamado de passagem, ao porteiro, que o picotava e o devolvia ao dono. A passagem tinha que ser apresentada ao chefe de trem, durante a viagem, como comprovante de pagamento.
Pelos guichês era possível ver os bilhetes coloridos sobre a mesa do bilheteiro. Carimbados com a data do dia. Identificados facilmente por suas cores diferenciadas. Bilhete para longo percurso, para a capital e para o interior; só de ida ou ida e volta. Meia passagem.
Depois da bilheteria, a estação, propriamente dita. Larga e forrada de pedriscos acinzentados.                        
Suas plataformas serviam os trens que iam para a capital e os que se dirigiam para o interior. A placa de dupla face trazia, em letras grandes, o nome da estação. No rodapé, em letras menores, sua altitude em relação ao nível do mar. Parece-me que algo em torno de setecentos e quarenta metros.
No centro da plataforma, o prédio que abrigava o escritório e o armazém. No armazém ficavam as cargas que aguardavam embarque ou retirada. Duas pesadas portas de madeira sobre trilhos, uma de cada lado, cuidavam da segurança.
 Entre o armazém e o escritório, a sala de espera, em arco. Como um pequeno túnel, ligando as duas plataformas. Numa parede os bancos para os passageiros e, na outra, dois guichês para atendimento ao público.
No escritório trabalhavam os empregados que cuidavam da administração da estação. Telegrafistas, manobradores, portadores, trabalhadores e o chefe de estação. O chefe da estação, com seu boné vermelho.
Na parede, o relógio de algarismos romanos, o suporte para as bandeiras de sinalização, verde, vermelha e amarela, e o seletivo para comunicação com o controle de tráfego. Numa das mesas, o aparelho de telégrafo, com seu martelar incessante. Dividindo espaço com blocos de memorandos, carimbos e telegramas, os lampiões usados no serviço de manobra e sinalização. Próximo a uma das portas, o cabide, com bonés, capas de chuva e agasalhos dos trabalhadores. O escritório também tinha duas portas. Uma para cada plataforma. E, anexo ao prédio do escritório, o banheiro feminino.
O barzinho da estação, o bar do Pedro, ficava logo depois do escritório. Sua porta se voltava para o prédio da administração e, nas laterais, as janelas-balcões. Duas, uma para cada plataforma. Nelas eram servidos os clientes, sempre apressados. Nelas ficavam os vidros giratórios com as cobiçadas e coloridas balas Paulistinha.
Em seguida vinha o banheiro masculino, que alguns chamavam de mictório, mais uma placa, igual à primeira, e o alambrado de malha graúda, que indicava o fim da estação de trem da minha cidade.

Um comentário:

  1. Muita gente da época estarão vendo essas fotos e sentirão saudades! Eu me lembro exatamente da maneira como voce descreveu! Pena que não dávamos tanto valor!

    Pedrinho

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