sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

FOLIA DE REIS


“Deus te sarve oratóro / Cum todo seus ornamento / Deus te sarve as estampinha / E as image qu’estão dentro”.
Os feriados de fim de ano terminaram. Ficaram para trás mais um Natal e mais um Dia de Ano Novo. A árvore está no seu cantinho, já quase esquecida. Cumpriu, mais uma vez, seu papel. Por mais um ano abrigou os pacotes coloridos ou a esperança de um presente que não veio. Assistiu a reunião da família e a algazarra da criançada.
Apenas o pisca-pisca chama a atenção. Isso quando alguém se lembra de ligá-lo. Aguardam o dia de retirar seus enfeites e colocá-los em caixas, para o ano seguinte. A árvore artificial é guardada; a natural jogada fora. Comum, passadas as Festas, ver os pinheirinhos, marrons, secos, esperando pelo caminhão de lixo. Seguem seu caminho, com o sentimento de missão cumprida. Ficaram montados até o dia seis de janeiro, Dia de Reis. Dos Reis Magos, Baltasar, Melchior e Gaspar. E, no canto da sala, o presépio aguarda uma importante visita: a dos cantadores da Folia de Reis.
A Folia de Reis é uma festa religiosa de origem portuguesa, que chegou ao Brasil no século XVIII. No período de 24 de dezembro, véspera de Natal, a 6 de janeiro, Dia de Reis, um grupo de cantadores e instrumentistas peregrina pelas ruas, entoando versos referentes à visita dos reis magos ao Menino Jesus. Passam de porta em porta em busca de acolhida ou oferendas.
Ao longe, o som do violino, sanfona, viola, violão e instrumentos de percussão. A música repetida incansavelmente envolve o silêncio da tarde. Os cantadores com seus instrumentos enfeitados com fitas coloridas caminham lentamente pelas ruas do bairro. O grupo aumenta a cada passo. Adultos e crianças se juntam ao cortejo. Em versos e melodias, cumprimentam o dono da casa e pedem licença para entrar.
“Sôr dono da casa / Vem abri as portaria / Recebê santo Reis / Com sua nobre folia”.
Autorizados, a cantoria continua no lado de dentro. Prendas, donativos e comes e bebes são oferecidos aos foliões. E os preciosos versos são preservados de geração em geração por tradição oral.
Seus personagens se tornam conhecidos. O Mestre, Contramestre, Palhaço, Foliões e Reis Magos. Seus versos anunciam o nascimento do Menino Jesus e homenageiam os três reis. E o grupo segue pelas ruas do bairro. As roupas coloridas tremulam ao ritmo da cantoria.
Fim de festa. Curiosos, olhávamos os homens se despindo de suas fantasias, descansando seus instrumentos. Enxugam o suor, matam a sede e se preparam para deixar a vila. O caminhão que os trouxe está esperando. A volta, somente para o ano.
Hoje, não sei se na vila em que me criei tem Folia de Reis. Não sei se ainda anunciam o nascimento do Menino Jesus. Não sei se nossas crianças conhecem as cantigas entoadas pelos Foliões.

Um comentário:

  1. Belo artigo !!!!Em Mairinque, cheguei a ver algumas folias de reis, mas hoje em dia acredito que a criançada não tem nem noção do que seja. - Mazé

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