“Deus te sarve oratóro / Cum todo seus
ornamento / Deus te sarve
as estampinha / E as image qu’estão dentro”.
Os feriados de
fim de ano terminaram. Ficaram para trás mais um Natal e mais um Dia de Ano
Novo. A árvore está no seu cantinho, já quase esquecida. Cumpriu, mais uma vez,
seu papel. Por mais um ano abrigou os pacotes coloridos ou a esperança de um
presente que não veio. Assistiu a reunião da família e a algazarra da
criançada.
Apenas o
pisca-pisca chama a atenção. Isso quando alguém se lembra de ligá-lo. Aguardam
o dia de retirar seus enfeites e colocá-los em caixas, para o ano seguinte. A
árvore artificial é guardada; a natural jogada fora. Comum, passadas as Festas,
ver os pinheirinhos, marrons, secos, esperando pelo caminhão de lixo. Seguem
seu caminho, com o sentimento de missão cumprida. Ficaram montados até o dia
seis de janeiro, Dia de Reis. Dos Reis Magos, Baltasar, Melchior e Gaspar. E,
no canto da sala, o presépio aguarda uma importante visita: a dos cantadores da
Folia de Reis.
A Folia de Reis
é uma festa religiosa de origem portuguesa, que chegou ao Brasil no século
XVIII. No período de 24 de dezembro, véspera de Natal, a 6 de janeiro, Dia de
Reis, um grupo de cantadores e instrumentistas peregrina pelas ruas, entoando
versos referentes à visita dos reis magos ao Menino Jesus. Passam de porta em
porta em busca de acolhida ou oferendas.
Ao longe, o
som do violino, sanfona, viola, violão e instrumentos de percussão. A música
repetida incansavelmente envolve o silêncio da tarde. Os cantadores com seus
instrumentos enfeitados com fitas coloridas caminham lentamente pelas ruas do
bairro. O grupo aumenta a cada passo. Adultos e crianças se juntam ao cortejo.
Em versos e melodias, cumprimentam o dono da casa e pedem licença para entrar.
“Sôr dono da casa
/ Vem abri as portaria / Recebê santo Reis / Com sua nobre folia”.
Autorizados, a
cantoria continua no lado de dentro. Prendas, donativos e comes e bebes são
oferecidos aos foliões. E os preciosos versos são preservados de geração em geração por
tradição oral.
Seus
personagens se tornam conhecidos. O Mestre, Contramestre, Palhaço, Foliões e
Reis Magos. Seus versos anunciam o nascimento do Menino Jesus e homenageiam os
três reis. E o grupo segue pelas ruas do bairro. As roupas coloridas tremulam
ao ritmo da cantoria.
Fim de festa.
Curiosos, olhávamos os homens se despindo de suas fantasias, descansando seus
instrumentos. Enxugam o suor, matam a sede e se preparam para deixar a vila. O
caminhão que os trouxe está esperando. A volta, somente para o ano.
Hoje, não sei se na vila em
que me criei tem Folia de Reis. Não sei se ainda anunciam o nascimento do
Menino Jesus. Não sei se nossas crianças conhecem as cantigas entoadas pelos
Foliões.



Belo artigo !!!!Em Mairinque, cheguei a ver algumas folias de reis, mas hoje em dia acredito que a criançada não tem nem noção do que seja. - Mazé
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