segunda-feira, 18 de março de 2013

PERDENDO A IDENTIDADE


Precisei fazer alguns orçamentos para a compra de materiais. Coisa pequena. Só para uma reforminha de fim de ano.
Fiz uma lista com nome e telefone de algumas lojas. Só as de mais perto. Sentei-me confortavelmente. Caneta e bloco de anotações. Fácil, pensei. Agora é só pesquisar e escolher o melhor preço. Preço e condições de pagamento, é claro.
– Alô! Do outro lado alguém que me pareceu uma telefonista-recepcionista-vendedora respondeu prontamente. Casa de material de construção Chove & Nãomolha, boa tarde. Em que posso servi-lo?  Animado, respondi que gostaria de fazer uma cotação de preços.  Pois não, vou transferi-lo para o setor de vendas.
Bem que eu achei que ia ser fácil. Atendimento de primeira. Cada um com sua especialidade. A moça, com voz macia, fazendo a recepção e um profissional especializado para o atendimento técnico.
Depois de pouco tempo ouvindo uma música de fundo enquanto esperava, fui atendido. – Boa tarde, senhor!  Posso ajudá-lo? – Ah, eu gostaria de falar com um vendedor. Pretendo verificar os preços de alguns materiais para reforma da minha casa. – Pois não, vou colocá-lo em contato com um de nossos consultores. A quem devo anunciar? – Hã? – Como é o nome do senhor?
– Zé, ou melhor, José, respondi prontamente. Afinal ia ter atendimento personalizado. Tratado pelo meu nome. – José de onde, meu senhor? – José de Albuquerque de Almeida Silva e Souza. Falei logo o nome completo pra ganhar mais importância. Almeida Silva por parte de mãe e Souza do lado do pai, emendei.
– Desculpe, meu senhor, José de onde e não José de quê. – Hã? –  José de onde, meu senhor – ela respondeu e eu acho que um pouco impaciente. 
– Ah, agora entendi. Eu que peço desculpa, minha senhora. José de Itapevi. Na verdade, nasci numa chacrinha nos arredores, mas o que consta mesmo no mapa é Itapevi. 
– Meu senhor, quando eu digo de onde, quero dizer de que empresa o senhor é. Onde o senhor trabalha. ­– Ah, minha filha. Já comecei chamando de filha pra ver se ela ficava mais calma. Eu sou aposentado. Não trabalho mais. Mas já trabalhei e muito. Do outro lado, silêncio. Pensei que “minha filha” tinha ido embora. Mas não. – Assim é difícil, meu senhor. Nosso representante vai querer saber de onde o senhor é; que empresa representa. Tem alguém que possa indicar como referência? – Hã? – Referência, alguém que conhece o senhor? – Ah, tenho sim. Meu tio, que por coincidência também se chama José. – Tudo bem, José de onde? Agora eu já conhecia a pergunta e respondi que meu tio perdeu o emprego. A empresa dele foi vendida, ele aderiu a um tal de programa de demissão voluntária e hoje está involuntariamente desempregado. – A senhora quer que eu fale o nome inteiro dele, com número de RG e CIC? – Não, meu senhor. Seu tio não serve como referência. Não basta ser José de alguma coisa, tem que ser José de algum lugar, de alguma empresa.
– Minha senhora, eu vou desligar e assim que eu conseguir uma referência eu ligo de novo.
Fiquei pensando como ia ser difícil ser atendido. De nada adiantava o nome de batismo. Aliás, deveria existir uma lei que obrigasse os pais a completarem os nomes de seus filhos. Além da homenagem aos avós e padrinhos, acrescentassem a razão social de alguma empresa. Assim, meu nome poderia ser, por exemplo, José de Albuquerque de Almeida Silva e Souza da Fepasa. Se isso tivesse sido feito, hoje eu não teria perdido, junto com meu emprego, minha identidade.

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