Precisei fazer
alguns orçamentos para a compra de materiais. Coisa pequena. Só para uma
reforminha de fim de ano.
Fiz uma lista
com nome e telefone de algumas lojas. Só as de mais perto. Sentei-me
confortavelmente. Caneta e bloco de anotações. Fácil, pensei. Agora é só
pesquisar e escolher o melhor preço. Preço e condições de pagamento, é claro.
– Alô! Do
outro lado alguém que me pareceu uma telefonista-recepcionista-vendedora
respondeu prontamente. Casa de material de construção Chove & Nãomolha, boa
tarde. Em que posso servi-lo? Animado,
respondi que gostaria de fazer uma cotação de preços. Pois não, vou transferi-lo para o setor de
vendas.
Bem que eu
achei que ia ser fácil. Atendimento de primeira. Cada um com sua especialidade.
A moça, com voz macia, fazendo a recepção e um profissional especializado para
o atendimento técnico.
Depois de
pouco tempo ouvindo uma música de fundo enquanto esperava, fui atendido. – Boa
tarde, senhor! Posso ajudá-lo? – Ah, eu
gostaria de falar com um vendedor. Pretendo verificar os preços de alguns
materiais para reforma da minha casa. – Pois não, vou colocá-lo em contato com
um de nossos consultores. A quem devo anunciar? – Hã? – Como é o nome do
senhor?
– Zé, ou melhor,
José, respondi prontamente. Afinal ia ter atendimento personalizado. Tratado
pelo meu nome. – José de onde, meu senhor? – José de Albuquerque de Almeida
Silva e Souza. Falei logo o nome completo pra ganhar mais importância. Almeida
Silva por parte de mãe e Souza do lado do pai, emendei.
– Desculpe,
meu senhor, José de onde e não José de quê. – Hã? – José de onde, meu senhor – ela respondeu e eu
acho que um pouco impaciente.
– Ah, agora
entendi. Eu que peço desculpa, minha senhora. José de Itapevi. Na verdade,
nasci numa chacrinha nos arredores, mas o que consta mesmo no mapa é Itapevi.
– Meu senhor,
quando eu digo de onde, quero dizer de que empresa o senhor é. Onde o senhor
trabalha. – Ah, minha filha. Já comecei chamando de filha pra ver se ela
ficava mais calma. Eu sou aposentado. Não trabalho mais. Mas já trabalhei e
muito. Do outro lado, silêncio. Pensei que “minha filha” tinha ido embora. Mas
não. – Assim é difícil, meu senhor. Nosso representante vai querer saber de
onde o senhor é; que empresa representa. Tem alguém que possa indicar como
referência? – Hã? – Referência, alguém que conhece o senhor? – Ah, tenho sim.
Meu tio, que por coincidência também se chama José. – Tudo bem, José de onde?
Agora eu já conhecia a pergunta e respondi que meu tio perdeu o emprego. A
empresa dele foi vendida, ele aderiu a um tal de programa de demissão
voluntária e hoje está involuntariamente desempregado. – A senhora quer que eu
fale o nome inteiro dele, com número de RG e CIC? – Não, meu senhor. Seu tio
não serve como referência. Não basta ser José de alguma coisa, tem que ser José
de algum lugar, de alguma empresa.
– Minha
senhora, eu vou desligar e assim que eu conseguir uma referência eu ligo de
novo.
Fiquei
pensando como ia ser difícil ser atendido. De nada adiantava o nome de batismo.
Aliás, deveria existir uma lei que obrigasse os pais a completarem os nomes de
seus filhos. Além da homenagem aos avós e padrinhos, acrescentassem a razão
social de alguma empresa. Assim, meu nome poderia ser, por exemplo, José de
Albuquerque de Almeida Silva e Souza da Fepasa. Se isso tivesse sido feito,
hoje eu não teria perdido, junto com meu emprego, minha identidade.

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