sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

SOBRE VIVENTES DE JANDIRA, EM TRÊS ATOS


SOBRE VIVENTES DE JANDIRA, EM TRÊS ATOS
Autor: Ayrton Corrêa



1º Ato – O Sonho

Nas gavetas de nossos corações, saudade amarelada pelo tempo.
Vez ou outra se manifesta em silêncio e vem fazer parte de um cair de tarde, de um início de noite ou de um pedaço de nossa madrugada. Fere de leve, provoca emoções e puxa para nosso rosto aquela lágrima contida e que teima em não aparecer.
Nossos pensamentos correm soltos, em visita a lugares, pessoas e causos que um dia fizeram parte de nossas vidas. Olhamos pela janela do tempo e um filme de recordações se projeta na tela de nossas lembranças.
São momentos deliciosos a que nos permitimos desfrutar, sem perdermos, no entanto, a consciência de que a realidade insistente e às vezes inconvenientemente nos chama de volta.
A cidade não é mais a mesma, aliás, nem poderia ser. O progresso avançou sem pedir licença. Jogou, para debaixo do tapete da modernidade, os traços que poderiam nos remeter a outros tempos. Escondeu, das novas gerações, quaisquer indícios que pudessem lhes dar uma vaga ideia de como era a cidade de seus pais, de seus avós.
As ruas esburacadas, ora empoeiradas ora enlameadas, ganharam asfalto. A escuridão, antes quebrada pelo pisca-pisca dos vagalumes ou pela luz encantadoramente azulada da lua, foi substituída pela iluminação elétrica. Nas casas, não mais chaminés, porque não mais fogão a lenha. As cercas de taquara foram substituídas pelos altos muros e os portões de ripas trançadas perderam lugar para os pesados e metálicos portões.
Impossível avistar o quintal do vizinho. Os amigos agora estão separados por barreiras físicas intransponíveis. As crianças já não brincam nas ruas. Pega-pega, passa-anel, amarelinha, esconde-esconde, bolinha de gude e pula corda são algumas das brincadeiras que, aos poucos, vão caindo no esquecimento.
Saber sobre nossa cidade, apenas nos bancos escolares. Apenas informações sobre área, população, densidade, altitude, clima localização, população, e dados econômicos, por exemplo.
Mas nossa cidade é só isso? Um pedaço de terra localizado em algum lugar desse nosso imenso Brasil? A história termina aí?
Não, nada disso. Seus moradores, aqueles que deram vida a esse pedaço de terra, têm muito mais para contar. Afinal, fazem parte de sua história, ou melhor, fizeram e continuam fazendo a história da cidade. Às vezes até tentam contar um pouco do que sabem. Às vezes até fazem algumas anotações em uma espécie de diário, por exemplo, na esperança de que um dia alguém, um filho, um neto ou bisneto, tenham a curiosidade de lê-las.
E se essas anotações ou memórias fossem contadas em um livro, já pensaram nisso? Com certeza, muitos de nós já sonhamos com essa oportunidade, mas, ao mesmo tempo, deixamos esse sonho de lado, por considerá-lo inatingível.
*

2º Ato – O Show

Em cantando Jandira”. Esse o nome do espetáculo que, no dia 24/11/2013, reuniu músicos da região e que tinha como propósito angariar fundos para a publicação do livro “Sobre viventes de Jandira”.
Título sonoro para uma obra que, reunindo cinquenta autores, pretendia publicar as histórias, até então arquivadas nas lembranças e nas anotações cuidadosamente guardadas no fundo das gavetas.
As pessoas, muitas delas autoras dos brilhantes e comoventes textos que ocupariam as páginas do tão desejado livro, chegavam aos poucos e, logo na entrada, demonstravam surpresas com a organização da festa. Não sem motivo. A começar pela decoração, passando pela recepção impecável e se completando, no interior do salão, com um espetáculo de luzes, somado à parafernália eletrônica que ocupava parte do palco, onde se apresentariam os artistas de Jandira e região.
Começava ali, para nós autores, a visão material do que até então conhecíamos apenas virtualmente, nas intensas trocas de correspondências pelo Facebook, ora em mensagens abertas, ora inbox, quando o assunto era um pouco mais delicado ou requeria atenção particularmente especial.
“Em cantando Jandira”, seguramente ficará na memória de todos aqueles que puderam estar presentes, tanto dos que ocupavam a plateia quanto, e principalmente, dos que pisaram o palco para, brilhantemente, mostrar um pouco de seu talento musical.
Se alguém ainda tinha dúvida de que um dia sua história seria publicada em livro, naquele domingo toda incerteza definitivamente desapareceu.

*

3º Ato – O Livro

Evidente que não vamos, em um espaço tão reduzido, conseguir a proeza de contar como saímos de um sonho inicialmente considerado inalcançável e chegamos à maravilhosa realidade de vermos esse sonho materializado na forma de um livro; de uma verdadeira obra de arte.
Só quem participou ativamente do processo de produção seria competente o suficiente para nos dar a exata dimensão das dificuldades que heroicamente conseguiram superar.
Sabemos, de ouvir dizer e, até porque já lemos alguma coisa a respeito de edição de livros, que todo esse processo demanda horas e horas de trabalho e entrega quase que integral, até que o produto final seja alcançado.
Exige sacrifícios de toda a equipe que, em grande parte das vezes, se priva da convivência com seus familiares e amigos, na luta diária para o cumprimento de cronogramas apertados e de compromissos assumidos com terceiros.
Mas é possível, sim, falar um pouco do que pudemos conhecer através das informações postadas pelos autores, organizadores e colaboradores, nos grupos formados nas redes sociais.
Como dissemos lá no início, existia uma vontade latente e, ocasionalmente até manifestada, de que um pouco de nossas histórias pudesse, de alguma maneira, chegar ao conhecimento de gerações futuras.
Mas nossas histórias continuavam lá, em nossa memória ou cuidadosamente guardadas nas páginas amareladas de nossas anotações, aguardando o momento certo para que pudessem ser reveladas ao mundo.
E finalmente esse momento chegou. Provavelmente inspirada em um reencontro de amigos, é sugerida, então, a produção de um livro com a publicação dessas histórias.
A sugestão começou a ganhar corpo e a entusiasmar a todos os que dela tomavam conhecimento, animando a formação de uma equipe de trabalho, coordenada pelo Filastor, aliás, autor da ideia, que propôs, também, que o lançamento do livro fosse feito em data próxima a 08/12/2013, comemoração dos cinquenta anos da emancipação da cidade, portanto, dali a mais ou menos quatro meses.
Proposto e realizado. No dia 15/12/2013, o lançamento do livro “Sobre viventes de Jandira” reuniu autores, familiares e amigos, em uma festa inesquecível, digna de verdadeiros escritores.
Citar o nome de todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para o sucesso desse empreendimento seria, no mínimo, imprudência de minha parte. Sem dúvida alguma, tantos foram os colaboradores que eu correria o risco imperdoável de omissões por esquecimento.
Portanto, quero concluir apenas parabenizando. Parabéns a todos nós, porque sonhamos. Aos amigos, equipe de trabalho e colaboradores, porque acreditaram nesse nosso sonho e ao Filastor Brega, porque não apenas sonhou, mas, com muita dedicação e sabedoria, coordenou o árduo trabalho que possibilitou a transformação desse nosso sonho em realidade.

ayrtoncor@globo.com

26/12/2013

Um comentário:

  1. Muito obrigado Ayrton Por todo o apoio e grande força ao projeto da existência desse livro!. Sua presença foi fundamental.
    Obrigado de coração
    Filastor

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