O cinema ficava no centro da cidade, do outro lado da linha
do trem. A luz elétrica estava começando a chegar e só iluminava um pouco das
casas e o comércio centrais. Nos bairros, ainda reinavam a luz da lamparina e
do lampião de querosene.
Nas telas, Zé do Caixão tirava as pessoas das casas, pelos
caminhos abertos em meio ao mato fechado e escuro.
Naquela sexta-feira, o grupo de meninos pegou o dinheiro
juntado na semana e foi para a fila da bilheteria. A seção começava às nove da
noite e acabava por volta das onze e meia. Do alto do morro, avistava-se a
tênue luz que se esforçava para atravessar a cerração daquela noite fria e, da
cidadezinha, destacava-se o breu que envolvia os vilarejos vizinhos.
Os meninos voltavam para suas casas, andando quase que
agarrados uns aos outros, juntando forças para vencer o medo da escuridão.
Atrás deles, o farfalhar das folhas impeliu-os a se voltarem. A alguns metros,
envolto na neblina, um vulto vestido de branco flutuava no ar. Petrificados,
olhavam para aquele espectro em seu bailado macabro.
Então era verdade o que contavam. Naqueles caminhos vagava a
alma de uma linda moça que, abandonada pelo noivo no dia do casamento,
resolvera acabar com a própria vida.
Num esforço sobre-humano conseguiram se mover e, em
desabalada carreira, alcançaram a casa de um deles. Recuperavam o fôlego,
quando, na curva da ruazinha, apontou o vulto de branco. Em silêncio e
escondidos, observaram sua passagem. Não acreditavam no que viam: montado em
sua mula preta, o caseiro da chácara vizinha cavalgava tranqüilo, protegendo-se
do frio, com um saco de pano branco sobre a cabeça.
Participação do concurso de microcontos - Jundiaí

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