segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O ÚLTIMO APITO

A noite começava cinzenta. Nuvens escuras cobriam o céu. A terra úmida indicava que uma chuva fina caíra durante todo o dia. O vento frio aumentava a sensação de desconforto, embora a temperatura não estivesse tão baixa.
Os pássaros noturnos permaneceram em seus ninhos. Naquela noite, nem as ruidosas brincadeiras das crianças nos quintais. Tinha-se a impressão de que todos cederam espaço para o acontecimento anunciando para, logo mais, no pátio da pequena estação. Nenhum ruído. O silêncio machucava os ouvidos das pessoas reunidas em angustiante espera.
Há dias que o movimento em torno da estação de trem fugira completamente da rotina.
O trabalhador da turma abriu a porta da sala e se deparou com um trator que, do outro lado da plataforma, rasgava a terra, abrindo uma rua paralela aos trilhos do desvio, indo do pátio à estrada principal.   
Um pressentimento o deixou preocupado. Aliás, já há algum tempo, vinha notando que sua ferrovia andava meio estranha. Definhava a olhos vistos. Será que aquela conversa que ouvira na cidade era verdadeira? Procurou distrair a cabeça. Não queria; não podia pensar nisso.
Atravessou o desvio e aproximou-se do homem que operava o trator. 
 “Fui contratado para facilitar o acesso àqueles galpões lá adiante – apontou o indicador na direção de umas construções amareladas, cobertas com telhas de cerâmica. Oficinas e depósitos – Não me disseram mais nada”.
Não entendia como alguma coisa diferente estava acontecendo, sem que ele soubesse. A cidade ainda era tão pequena que as notícias corriam como corisco.
O trajeto entre a ponta da estação e sua casa lhe pareceu interminável. Precisava conversar com alguém; ouvir. Tinha, com ele, um mau presságio, mas poderia estar enganado.
Perguntou. Ninguém sabia de nada. Apenas achavam que era o início das obras que dariam novos impulsos às atividades da ferrovia. Santa ingenuidade, pensou, meio que sem querer.
Enquanto isso o trator continuava seu serviço e a nova rua tomava forma.
Nos dias que se seguiram, sentado na beira da plataforma, ele assistia o vai-e-vem das carretas levando, sabe-se lá para onde, um pedaço de sua vida.
E, naquela noite, a mesma estação que já servira de palco para muitas alegrias, estava, dessa vez, lotada de populares que vieram para um derradeiro abraço.
As lágrimas descem incontidas pelos rostos cansados. O apito da maria-fumaça cobre os soluços incontrolados da pequena multidão.
Silêncio. Cabisbaixos, voltam para suas casas. No pátio, a máquina a vapor se entrega à solidão e deixa escapar seu último suspiro. 

Um comentário:

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