A noite começava cinzenta. Nuvens escuras cobriam o céu. A terra
úmida indicava que uma chuva fina caíra durante todo o dia. O vento frio
aumentava a sensação de desconforto, embora a temperatura não estivesse tão
baixa.
Os pássaros noturnos permaneceram em seus ninhos. Naquela noite,
nem as ruidosas brincadeiras das crianças nos quintais. Tinha-se a impressão de
que todos cederam espaço para o acontecimento anunciando para, logo mais, no
pátio da pequena estação. Nenhum ruído. O silêncio machucava os ouvidos das
pessoas reunidas em angustiante espera.
Há dias que o movimento em torno da estação de trem fugira
completamente da rotina.
O trabalhador da turma abriu a porta da sala e se deparou com um
trator que, do outro lado da plataforma, rasgava a terra, abrindo uma rua
paralela aos trilhos do desvio, indo do pátio à estrada principal.
Um pressentimento o deixou preocupado. Aliás, já há algum tempo,
vinha notando que sua ferrovia andava meio estranha. Definhava a olhos vistos.
Será que aquela conversa que ouvira na cidade era verdadeira? Procurou distrair
a cabeça. Não queria; não podia pensar nisso.
Atravessou o desvio e aproximou-se do homem que operava o trator.
“Fui contratado para facilitar
o acesso àqueles galpões lá adiante – apontou o indicador na direção de umas
construções amareladas, cobertas com telhas de cerâmica. Oficinas e depósitos –
Não me disseram mais nada”.
Não entendia como alguma coisa diferente estava acontecendo, sem
que ele soubesse. A cidade ainda era tão pequena que as notícias corriam como
corisco.
O trajeto entre a ponta da estação e sua casa lhe pareceu
interminável. Precisava conversar com alguém; ouvir. Tinha, com ele, um mau
presságio, mas poderia estar enganado.
Perguntou. Ninguém sabia de nada. Apenas achavam que era o início
das obras que dariam novos impulsos às atividades da ferrovia. Santa
ingenuidade, pensou, meio que sem querer.
Enquanto isso o trator continuava seu serviço e a nova rua tomava
forma.
Nos
dias que se seguiram, sentado na beira da plataforma, ele assistia o vai-e-vem
das carretas levando, sabe-se lá para onde, um pedaço de sua vida.
E,
naquela noite, a mesma estação que já servira de palco para muitas alegrias, estava,
dessa vez, lotada de populares que vieram para um derradeiro abraço.
As
lágrimas descem incontidas pelos rostos cansados. O apito da maria-fumaça cobre
os soluços incontrolados da pequena multidão.
Silêncio.
Cabisbaixos, voltam para suas casas. No pátio, a máquina a vapor se entrega à
solidão e deixa escapar seu último suspiro.

lindo......que poeta, hein??? Bjs
ResponderExcluirMaze' Conde