Ayrton Corrêa
Dias atrás
escrevi um texto em que falei de uma árvore que encontrei enquanto andava pelo
bairro. Assim que foi publicado, alguns leitores me perguntaram onde eu havia
arrumado uma árvore com aquele nome.
No início não entendi muito bem a
razão das perguntas, pois a espécie sobre a qual me referi é muito conhecida na
minha região.
Mais tarde, no entanto, lendo o
artigo no jornal, pude entender o que estava acontecendo. Não sei se por engano
na digitação, transcrição, diagramação ou transmissão por e-mail, o título do
artigo saiu com uma pequena incorreção. Trocado. O pé de Cambará virou pé de
Tambará.
“Vou verificar e depois eu ligo ou escrevo
para vocês”. Essa, a minha resposta para os que perguntaram. Precisava de tempo
para encontrar uma saída. Sem mentir. Apenas tentando aproveitar o pequeno
engano e encontrar um espaço para o “pé de Tambará” em meu texto. Justificar
sua presença. Diria, por exemplo, que ele e minha árvore pertenciam a uma mesma
família, primos de terceiro grau, compadres, grandes amigos ou, no mínimo,
antigos conhecidos. Para isso, bastava apenas encontrá-lo, conhecê-lo, saber
como ele é. Parecia fácil.
Aí que me enganei. Não foi nada
fácil. Eta arvorezinha difícil de ser encontrada.
Comecei pelo meu quintal. O pé de
abacate, pé de cedro, pé de manga, pé de banana e pé de laranja. Não encontrei.
Fui procurar na chácara. Achei o
pé de goiaba, pé de caqui, pé de mexerica, pé de amora, pé de pera, pé de
limão, pé de uva, pé de melancia e o pé de abóbora. Lá também não estava.
Saí pela redondeza. Encontrei o
pé de eucalipto, pé de aroeira, pé de vassourinha, pé de jabuticaba, pé de romã
e o pé de pitanga. Nada do tal pé de Tambará.
Recorri, então,
aos amigos. Conhecem o pé de maracujá, pé de pimenta malagueta, pé de gabiroba,
pé de erva-cidreira, pé de capim-gordura e pé de banana-do-brejo. Acabou o repertório, e nada.
Eu não podia desistir. Tinha que
procurar mais longe, fora do meu bairro, da minha cidade. Não podia deixar os
leitores sem resposta. E aí, como o caso passou a merecer, iniciei uma pesquisa
mais aprofundada sobre a questão. Fui para o dicionário. E o Aurélio me
respondeu: “verbete não encontrado”. Vejam vocês, chamou o já deslocado pé de
Tambará de verbete!
Apelei, como último recurso, para
a Internet. Disseram-me que ela sabe tudo. Achei pé de buriti, pé de
barbatimão, pé de ingá, pé de araticum, pé de munguba, pé de muriti, pé de
mutamba... E a lista seguia a perder de vista. E eu a perder as esperanças.
Mais uma vez, nada do tal de pé de Tambará.
Como eu não podia passar a vida
procurando, pois tinha prazo para enviar este texto à redação, acabei por
aceitar a idéia de que Tambará, enquanto árvore, não existe. Pelo menos até
onde eu a procurei. Com certeza ela não existe na minha região, senão eu a
teria encontrado.
E dei o assunto por encerrado. A
menos que alguém me apresente a um pé de Tambará, posso garantir aos amigos
leitores que tudo não passou de um pequeno engano. Que aquela árvore toda
torta, de casca grossa, no barranco à beira da linha é, sem sombra de dúvida,
um autêntico e simpático pé da Cambará.

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