quinta-feira, 26 de junho de 2014

VERDES CAMPOS

Como que atendendo a um chamado silencioso, iam, as pessoas, em direção aos campos de futebol, na certeza de mais um fim de semana de emoções.
A pé, em sua maioria, pois sem carro, também em sua maioria, iam em grupos, conversando, rindo e sem pressa.  Vinham de todos os lados.
Logo depois da curva que definia o caminho para Cotia ou Amador Bueno, o campo do Grêmio.  De um lado e atrás de um dos gols o rio, onde a bola, escapada de um chute sem direção, teimava em mergulhar, para ser alcançada com uma vara de bambu ou pelos garotos que buscavam um bom motivo para se atirar em suas águas claras e refrescantes. 
Nas laterais do gramado, limitado por uma cerca baixa, se acotovelavam os torcedores em dias de clássico.
Dado o apito inicial, concentravam-se todos.  Que colírio para os olhos as tabelinhas criadas e terminadas em gol.  Quantos prazeres gratuitos nas jogadas de craques como Geraldinho, Guinho, Tadeu e Nishimura, e nos chutes indefensáveis do Zulu, apenas para mencionar alguns dos privilegiados com a arte de dar espetáculos.
Assim como eles, outros existiram e muitas alegrias deram, principalmente aos garotos que, admirados com a facilidade com que dominavam a bola, os tinham como ídolos. 
Do outro lado da cidade, perto do pontilhão, entre a linha do trem e um rio, mais dois campos: o do América e o do CIPE. 
Igualmente bem frequentados em dias de jogos.  Tão próximos um do outro que, não raro, as bolas de dois jogos simultâneos se misturavam. O torcedor escolhia.  Acomodava-se à beira dos campos, ao calor do sol ou, se preferisse, à sombra dos eucaliptos que se erguiam majestosos na divisa entre os dois gramados.
Aqui também havia um rio, também de águas claras e refrescantes, também com garotos ansiosos por recuperar uma bola fugidia.
No Grêmio o som dos carros, poucos, porém ruidosos, que cruzavam a rua atrás de um dos gols e o murmurar das águas do rio serviam como fundo musical para as partidas de futebol.  Já, nos campos do América e do CIPE, esse fundo musical vinha do rio e dos trens que passavam atrás de um dos gols.  Velocidade reduzida, aproximando-se da estação, apitando e sacolejando suas partes de ferro, ele encobria por instantes todos os outros sons, inclusive os dos pássaros.  Eu, feliz, ouvi todos esses sons.
Vieram as indústrias. Serras, elétricas ou não, e as máquinas de terraplanagem.  Poluentes e ruidosas, sujaram os rios, levaram árvores, inclusive os enormes eucaliptos, gramados e pássaros. Encobriram todos os sons. Até o do trem!  Mataram nossos ídolos. Mataram nossas fantasias.

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