Como que atendendo a um chamado
silencioso, iam, as pessoas, em direção aos campos de futebol, na certeza de
mais um fim de semana de emoções.
A pé, em sua maioria, pois sem
carro, também em sua maioria, iam em grupos, conversando, rindo e sem
pressa. Vinham de todos os lados.
Logo depois da curva que definia
o caminho para Cotia ou Amador Bueno, o campo do Grêmio. De um lado e atrás de um dos gols o rio, onde
a bola, escapada de um chute sem direção, teimava em mergulhar, para ser
alcançada com uma vara de bambu ou pelos garotos que buscavam um bom motivo
para se atirar em suas águas claras e refrescantes.
Nas laterais do gramado, limitado
por uma cerca baixa, se acotovelavam os torcedores em dias de clássico.
Dado o apito inicial,
concentravam-se todos. Que colírio para
os olhos as tabelinhas criadas e terminadas em gol. Quantos prazeres gratuitos nas jogadas de
craques como Geraldinho, Guinho, Tadeu e Nishimura, e nos chutes indefensáveis do Zulu,
apenas para mencionar alguns dos privilegiados com a arte de dar espetáculos.
Assim como eles, outros existiram
e muitas alegrias deram, principalmente aos garotos que, admirados com a
facilidade com que dominavam a bola, os tinham como ídolos.
Do outro lado da cidade, perto do
pontilhão, entre a linha do trem e um rio, mais dois campos: o do América e o
do CIPE.
Igualmente bem frequentados em
dias de jogos. Tão próximos um do outro
que, não raro, as bolas de dois jogos simultâneos se misturavam. O torcedor escolhia. Acomodava-se à beira dos campos, ao calor do
sol ou, se preferisse, à sombra dos eucaliptos que se erguiam majestosos na
divisa entre os dois gramados.
Aqui também havia um rio, também
de águas claras e refrescantes, também com garotos ansiosos por recuperar uma
bola fugidia.
No Grêmio o som dos carros,
poucos, porém ruidosos, que cruzavam a rua atrás de um dos gols e o murmurar
das águas do rio serviam como fundo musical para as partidas de futebol. Já, nos campos do América e do CIPE, esse
fundo musical vinha do rio e dos trens que passavam atrás de um dos gols. Velocidade reduzida, aproximando-se da
estação, apitando e sacolejando suas partes de ferro, ele encobria por
instantes todos os outros sons, inclusive os dos pássaros. Eu, feliz, ouvi todos esses sons.
Vieram as indústrias. Serras,
elétricas ou não, e as máquinas de terraplanagem. Poluentes e ruidosas, sujaram os rios,
levaram árvores, inclusive os enormes eucaliptos, gramados e pássaros. Encobriram
todos os sons. Até o do trem! Mataram
nossos ídolos. Mataram nossas fantasias.

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