O que se percebe é que, quando o assunto é mãe, evita-se falar dos defeitos que ela tem. Busca-se, até pelo seu indiscutível valor, realçar seus pontos positivos e não se aventura muito a falar de nada que possa arranhar sua imagem.
Pois bem, ainda que antipático e até perigoso, vou me arriscar por esse caminho. Chamar a atenção para alguns de seus defeitos. São muitos, posso garantir, mas não há espaço para tantos. Vou falar apenas de alguns. Vistos e percebidos em todas as fases da vida do filho. Só não se fala muito a respeito, para não magoar.
Quando pequeno, o filho tem que estar sempre enxutinho, bem alimentado, com os ouvidos protegidos dos ventos, mãos limpinhas e pés calçados. Banho quando acorda, banho acordado e banho pra dormir. Se tem remédio para tomar, não importa a hora, a mãe o acorda. E se ele não está muito bem, ela passa a noite sentada ao seu lado. Acorda-o para o remédio, para ver a temperatura, para a mamadeira, para trocar de roupa. Acorda-o, simplesmente, pela necessidade de vê-lo acordado. De ver que está tudo bem. E a criança, coitada, não tem como reagir. Não pode dar opinião. Aliás, nem é consultada.
Na idade escolar, então, mais tortura. Penteie os cabelos, ponha a camisa para dentro das calças, amarre os sapatos. Cuidado pra atravessar as ruas, não pare pelo caminho, coma todo o lanche, quando sair, venha direto pra casa, se fizer frio, ponha a blusa, se fizer calor, dobre as mangas, se; se; se... São tantas recomendações que às vezes a criança, atordoada, chega a esquecer até para onde estava indo.
Em casa, de folga, a criança não tem folga. Tome café, escove os dentes, venha almoçar, saia da frente dessa televisão, pare um pouco com esse vídeo game, não se esqueça de fazer a lição, estude para a prova, tome banho, escove os dentes (outra vez), faça isso, faça aquilo... Marcação cerrada.
Começam as amizades. As saídas à noite. A criança já não é tão criança. Começa a fugir do controle. E a mãe percebe isso. Aumentam as preocupações, mas ela não pode fazer muita coisa. Antes, podia até acompanhá-la para ver o que estava fazendo. Agora, não. Resta-lhe, apenas, redobrar as recomendações e acrescentar muitas perguntas. Leve um agasalho, não chegue muito tarde, se for demorar, dê uma ligadinha, se quiser que vá buscá-lo, avise, não pare pelos bares, evite lugares isolados. Onde você vai? Com quem? A que horas pretende voltar? Como você volta? Está levando as chaves? Esta última pergunta, então, é de lascar. Pra que chave, se quando o filho, já raiando o dia, mal se aproxima da porta, esta se abre como por encanto. “Eu me levantei pra beber água e escutei você chegando; aproveitei pra abrir a porta”, diz, se desculpando. Não quer que ele saiba que não pregou os olhos a noite toda.
Um dia o filho cresce, se forma, vira adulto e deixa a casa. Toca sua vida. Quase não se lembra que um dia foi criança. Não sobra muito tempo pra isso. Quase nem mais se lembra que sua mãe tinha tantos defeitos.
Ah, mas inventaram o Dia das Mães. Dia de dar presente, de estar presente, de se fazer presente. Mais que isso, dia de saudade. Saudade dos defeitos cheios de sabedoria que orientaram nossas vidas. Dos defeitos que, de tão perfeitos, repetimos com nossos filhos.
Feliz Dia das Mães!
Feliz Dia das Mães!
"Vc disse q ñ seria uma tarefa fácil falar de mãe,mais vc falou muito bem.....vc falou de todas as mães rs!!!parabéns Ayrton Corrêa." - Rosana Valero
ResponderExcluirNãp vivemos sem estes defeitos! Bela foto! Saudades imensas! - Vitória Paixão
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