Antes da lâmpada, reinavam a lamparina,
a vela e o lampião de querosene. Sofriam as paredes com a fuligem que esse tipo
de iluminação deixava. Rastros negros em direção ao teto. Subindo pelo reboco
ou pela madeira do batente.
Na caça às rãs, o lampião de carbureto
e, na casa de um vizinho, um lampião de gás. Um exagero de claridade!
Nas ruas – estreitos caminhos em meio ao
matagal habitado por cobras, preás, tatus, pássaros e... assombrações – a luz
da lanterna à pilha encantava. Objeto raro. O pai de um amigo meu tinha uma.
Empunhando o farolete, a gente, ainda criança, se enchia de coragem e tomava a
frente do grupo. Mato fechado. Impossível enxergar um palmo adiante do nariz.
Para os morcegos, corujas e outros animais de hábitos noturnos não poderia
haver condições melhores.
O farol prateado, alimentado pelo
dínamo, posava majestoso no guidão da bicicleta de meu tio. Varava o breu com
sua luz amarela. Iluminava quando em movimento. Parou, não se via mais nada.
Ouvi dizer que houve uma época em que as
primeiras casas do bairro recebiam energia elétrica de uma fábrica da região.
Isso bem “no antigamente”. Muito provavelmente na década de cinqüenta. Depois
cortaram.
E a escuridão era tanta que a luz azul
da lua podia ser percebida. Por incrível que pareça, até os vaga-lumes faziam
diferença. Aliás, vocês têm visto algum vaga-lume por aí? Bichinho simpático,
não? Andam meio sumidos.
Depois veio a iluminação pública. O
número de casas aumentou.
Em cada canto um bico de luz para iluminar o quintal. O lampião e
a lamparina
foram para o porão. O maço de velas foi para a gaveta. O lampião de carbureto
perdeu sua utilidade, pois o brejo foi aterrado e as rãs se mudaram. A luz do
lampião de gás se enfraqueceu diante das lâmpadas incandescentes de muitas
velas. O mato veio abaixo; os bichos se assustaram; o farolete foi aposentado e
a bicicleta não precisou mais de farol. Os vaga-lumes, acredito, foram mostrar
seu pisca-pisca em outras paragens. As assombrações pararam de assombrar.
A luz da lua foi engolida pelas luzes da
cidade.


Lindo......lindo - Rosana Valero
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