NO TEMPO DA
LUZ DA LUA
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oje, quando ilumino a casa inteira com um simples apertar
de botões ou caminho pelas minhas ruas enxergando onde piso, não posso deixar
de me lembrar de épocas em que nada disso era possível.
No
meu bairro não havia luz elétrica. Depois, graças aos esforços de alguns
moradores, a iluminação chegou às casas. As ruas continuaram às escuras.
Antes da lâmpada, reinavam a lamparina, a vela e o lampião de
querosene. Sofriam as paredes com a fuligem que esse tipo de iluminação
deixava. Rastros negros em direção ao teto. Subindo pelo reboco ou pela madeira
do batente.
Na caça às rãs, o lampião de carbureto e, na casa de um vizinho, um
lampião a gás. Um exagero de claridade!
Nas ruas – estreitos caminhos em meio ao matagal habitado por cobras,
preás, tatus, pássaros e... assombrações – a luz da lanterna a pilha encantava.
Objeto raro. O seu Rafael Barranco, pai de um amigo meu, tinha uma. Empunhando
o farolete, a gente, ainda criança, se enchia de coragem e tomava a frente do
grupo. Mato fechado. Impossível enxergar um palmo adiante do nariz. Para os
morcegos, corujas e outros animais de hábitos noturnos não poderiam haver
condições melhores.
O farol prateado, alimentado pelo dínamo, posava majestoso no guidão da
bicicleta de meu tio Dito. Varava o breu com sua luz amarela. Iluminava quando
em movimento. Parou, não se via mais nada.
Ouvi dizer que houve uma época em que as primeiras casas do Bairro
recebiam energia elétrica de uma fábrica de vinho. Isso bem “no antigamente”.
Muito provavelmente na década de 1950. Depois cortaram.
E a escuridão era tanta que a luz azul da lua podia ser percebida. Por
incrível que pareça, até os vaga-lumes faziam diferença. Aliás, vocês têm visto
algum vaga-lume por aí? Bichinho simpático, não? Andam meio sumidos.
Depois veio a iluminação pública. O número de casas aumentou. Em cada
canto um bico de luz para iluminar o quintal. O lampião e a lamparina foram
para o porão. O maço de velas foi para a gaveta. O lampião de carbureto perdeu
sua utilidade, pois o brejo foi aterrado e as rãs se mudaram. A luz do lampião a
gás se enfraqueceu diante das lâmpadas incandescentes de muitas velas. O mato
veio abaixo; os bichos se assustaram; o farolete foi aposentado e a bicicleta
não precisou mais de farol. Os vaga-lumes, acredito, foram mostrar seu
pisca-pisca em outras paragens. As assombrações pararam de assombrar.
A luz da lua foi engolida pelas luzes da cidade.
Texto
publicado em 1/7/2006
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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