domingo, 15 de dezembro de 2019


NO TEMPO DA LUZ DA LUA



H
oje, quando ilumino a casa inteira com um simples apertar de botões ou caminho pelas minhas ruas enxergando onde piso, não posso deixar de me lembrar de épocas em que nada disso era possível.
No meu bairro não havia luz elétrica. Depois, graças aos esforços de alguns moradores, a iluminação chegou às casas. As ruas continuaram às escuras.
Antes da lâmpada, reinavam a lamparina, a vela e o lampião de querosene. Sofriam as paredes com a fuligem que esse tipo de iluminação deixava. Rastros negros em direção ao teto. Subindo pelo reboco ou pela madeira do batente.
Na caça às rãs, o lampião de carbureto e, na casa de um vizinho, um lampião a gás. Um exagero de claridade!
Nas ruas – estreitos caminhos em meio ao matagal habitado por cobras, preás, tatus, pássaros e... assombrações – a luz da lanterna a pilha encantava. Objeto raro. O seu Rafael Barranco, pai de um amigo meu, tinha uma. Empunhando o farolete, a gente, ainda criança, se enchia de coragem e tomava a frente do grupo. Mato fechado. Impossível enxergar um palmo adiante do nariz. Para os morcegos, corujas e outros animais de hábitos noturnos não poderiam haver condições melhores.
O farol prateado, alimentado pelo dínamo, posava majestoso no guidão da bicicleta de meu tio Dito. Varava o breu com sua luz amarela. Iluminava quando em movimento. Parou, não se via mais nada.
Ouvi dizer que houve uma época em que as primeiras casas do Bairro recebiam energia elétrica de uma fábrica de vinho. Isso bem “no antigamente”. Muito provavelmente na década de 1950. Depois cortaram.
E a escuridão era tanta que a luz azul da lua podia ser percebida. Por incrível que pareça, até os vaga-lumes faziam diferença. Aliás, vocês têm visto algum vaga-lume por aí? Bichinho simpático, não? Andam meio sumidos.
Depois veio a iluminação pública. O número de casas aumentou. Em cada canto um bico de luz para iluminar o quintal. O lampião e a lamparina foram para o porão. O maço de velas foi para a gaveta. O lampião de carbureto perdeu sua utilidade, pois o brejo foi aterrado e as rãs se mudaram. A luz do lampião a gás se enfraqueceu diante das lâmpadas incandescentes de muitas velas. O mato veio abaixo; os bichos se assustaram; o farolete foi aposentado e a bicicleta não precisou mais de farol. Os vaga-lumes, acredito, foram mostrar seu pisca-pisca em outras paragens. As assombrações pararam de assombrar.
A luz da lua foi engolida pelas luzes da cidade.

Texto publicado em 1/7/2006

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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