UM GRANDE PERIGO
V
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i em uma revista ou jornal da região, já não me recordo,
uma foto antiga de Itapevi, onde a ponte que ligava a praça à estação aparece
em destaque.
Trouxe-me
à lembrança o tempo em que, para se chegar à praça central, as pessoas que
moravam do outro lado da linha tinham que cruzá-la.
Era
uma ponte bonita. Grande. De madeira. Enfeitava a entrada da cidade com suas
“guardas” altas descendo como escorregadores em suas extremidades. De um lado a
praça com sua banca de jornal. Eu acho que era a única. O bar do Jupira, a
padaria do Mazito, o açougue do seu Pedro, a farmácia do seu Mário, o bar do
Constatino... Do outro, a estação
ferroviária, o mangueirão para o gado que vinha em gaiolas, a delegacia de
polícia e, mais distante, o frigorífico.
Nos
horários de pico, de manhã e à tarde, o trânsito de pessoas na ponte era
intenso. Era tanta gente andando de um para outro lado que dava gosto ficar apreciando
o movimento.
Nós,
do lado de cá, atravessávamos todos os dias essa ponte. O grupo escolar onde
frequentávamos o curso primário e a igreja em que estudávamos o catecismo
ficavam na cidade.
Aliás,
tudo ficava na cidade. Pouca coisa havia do lado de cá.
Poderia
ser, sem dúvida alguma, um itinerário agradável. Digo poderia porque, para
nosso terror, moleques em idade escolar, havia em uma das cabeceiras dessa
ponte, do lado da cidade, um grupo de engraxates.
Assim
contado, depois de tantos anos, fica difícil acreditar que uma turma de
moleques pudesse causar tantos aborrecimentos. Simplesmente não iam com nossa
cara. Aliás, eu acho que não iam com a cara de ninguém.
Bastava
que alguém olhasse para o lado deles e a confusão estava formada. Quantas vezes
tivemos que correr. Algumas, completando a travessia, outras, voltando do meio
do caminho. Não me lembro de seus nomes e nem de suas fisionomias. Agora não
faz diferença, mas na época era muito importante reconhecê-los à distância. Não
era muito bom cruzar o caminho deles.
Por
outro lado, devo admitir que eles eram exemplos a serem seguidos. Trabalhadores. Certamente ajudavam em casa
com o pouco que ganhavam honestamente, engraxando sapatos. Tinham cara de
bravos e pose de valentes. Adoravam nos
assustar. Na realidade, apenas faziam tipo.
Hoje,
diante de tantos medos, acho graça do “grande perigo” que aqueles moleques
representavam. Tudo bem que nunca parei para saber se eles eram mesmo
perigosos. Mas, pensando bem, nunca soube que tivessem feito mal sequer a uma
mosca.
Publicado em
25/5/2002
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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