quinta-feira, 28 de maio de 2020


POR FAVOR, NÃO FALEM DA MINHA CIDADE!



N
a minha adolescência e, depois mais tarde, adulto, eu me implicava com o fato de minha cidade não aparecer nos noticiários. Ninguém a conhecia. Quando dizia a alguém de fora que eu morava em Itapevi, diante da cara de ignorância da pessoa, eu logo emendava: perto de Cotia.
         “Ah! Agora eu sei mais ou menos onde fica”. Ouvia como resposta.
        E era assim com os amigos. Nas lojas em que fazia cadastro. Na faculdade. Na empresa.
          No começo eu pensei que essas pessoas eram fracas em geografia. Mas com o tempo comecei a desconfiar que não. Era muita gente que não conhecia minha cidade. Era uma ignorância coletiva.
       Os jornais e as TVs traziam notícias de todos os municípios vizinhos.  Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, São Roque. Pulavam Itapevi. Era de doer. Chegavam até Cotia, Sorocaba e outras localidades mais distantes sem passar pela minha cidade. Era muito atrevimento.
           E eu ficava me perguntando por que a imprensa não dava a mínima pela minha cidade. E, sempre que tinha oportunidade fazia meu apelo: por favor, falem da minha cidade!
         Com o passar do tempo fui me acostumando com a ausência de Itapevi nos noticiários. Só podia ser implicância.
          De repente, quando eu já começava a me “desencanar” dessa terrível mania de perseguição, de preconceito, eis que a imprensa nos descobre. Jornais, rádios, canais de televisão e, pasmem, as pessoas. Isso mesmo. As mesmas pessoas que antes nem sabiam da existência da minha cidade.
         Agora me ligam ou comentam quando nos encontramos. Mais que isso, mandam-me e-mails dizendo que já sabem de onde eu vim, ou seja, onde fica minha cidade.
        E acrescentam informações dignas de quem conhece muito. De quem está bem informado. E repetem, com facilidade e insistência, dados que até eu desconhecia.  Falam do número de pessoas infectadas pelo mosquito da dengue. Das enchentes. Dos desmoronamentos de casas, normalmente precariamente construídas nas encostas. Dos assaltos. Da precariedade dos serviços de saúde. De esgotos a céu aberto. Da falta frequente de água. Das ruas esburacadas. Do desemprego, etc.
         Descobriram minha cidade! A televisão, os jornais, as rádios, todos estão finalmente falando da minha cidade. Ela agora existe.
         Mas, esperem um pouco. Não falam de outra coisa. Só coisas ruins! Não era isso que eu queria. Queria, sim, que falassem. Mas que falassem de uma cidade em desenvolvimento. Com as crianças indo para as escolas, em segurança. Com postos de saúde atendendo plenamente às necessidades da população. Praças bonitas e bem tratadas. Ruas limpas, seguras e bem cuidadas. Nada de dengue. Nada de enchentes. Sem desmoronamentos.
          Então me dou conta que o tempo passou. Que a cidade cresceu. Que já tem os problemas dos grandes centros. E fico pensando também se teria que ser dessa forma. Ou seja, já estaria tão grande que saiu do controle?
         E aí sinto saudade do tempo em que meus amigos não a conheciam.   Não sabiam onde ela ficava.
          Hoje, quando tenho oportunidade de me aproximar de alguém da imprensa, sabendo antecipadamente que assuntos irão para as manchetes, faço meu apelo: por favor, não falem da minha cidade!
Publicado em 26/4/2003

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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