TAMBARÁ, UMA
ÁRVORE QUE NÃO EXISTE
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ias atrás escrevi um texto em que falei de uma árvore que
encontrei enquanto andava pelo Bairro. Assim que foi publicado, alguns leitores
me perguntaram onde eu havia arrumado uma árvore com aquele nome.
No
início não entendi muito bem a razão das perguntas, pois a espécie sobre a qual
me referi é muito conhecida na minha região.
Mais
tarde, no entanto, lendo o artigo no jornal, pude entender o que estava
acontecendo. Não sei se por engano na digitação, transcrição, diagramação ou
transmissão por e-mail, o título do artigo saiu com uma pequena incorreção.
Trocado. O pé de Cambará virou pé de Tambará.
“Vou verificar e depois eu ligo ou escrevo
para vocês”. Essa, a minha resposta para os que perguntaram. Precisava de tempo
para encontrar uma saída. Sem mentir. Apenas tentando aproveitar o pequeno
engano e encontrar um espaço para o “pé de Tambará” em meu texto. Justificar
sua presença. Diria, por exemplo, que ele e minha árvore pertenciam a uma mesma
família, primos de terceiro grau, compadres, grandes amigos ou, no mínimo,
antigos conhecidos. Para isso, bastava apenas encontrá-lo, conhecê-lo, saber
como ele é. Parecia fácil.
Aí
que me enganei. Não foi nada fácil. Eta arvorezinha difícil de ser encontrada.
Comecei
pelo meu quintal. O pé de abacate, pé de cedro, pé de manga, pé de banana e pé
de laranja. Não encontrei.
Fui
procurar na chácara. Achei o pé de goiaba, pé de caqui, pé de mexerica, pé de
amora, pé de pera, pé de limão, pé de uva, pé de melancia e o pé de abóbora. Lá
também não estava.
Saí
pela redondeza. Encontrei o pé de eucalipto, pé de aroeira, pé de vassourinha,
pé de jabuticaba, pé de romã e o pé de pitanga. Nada do tal pé de Tambará.
Recorri,
então, aos amigos. Conhecem o pé de maracujá, pé de pimenta malagueta, pé de
gabiroba, pé de erva-cidreira, pé de capim-gordura e pé de
banana-do-brejo. Acabou o repertório, e
nada.
Eu
não podia desistir. Tinha que procurar mais longe, fora do meu bairro, da minha
cidade. Não podia deixar os leitores sem resposta. E aí, como o caso passou a
merecer, iniciei uma pesquisa mais aprofundada sobre a questão. Fui para o
dicionário. E o Aurélio me respondeu: “verbete não encontrado”. Vejam vocês,
chamou o já deslocado pé de Tambará de verbete!
Apelei,
como último recurso, para a Internet. Disseram-me que ela sabe tudo. Achei pé
de buriti, pé de barbatimão, pé de ingá, pé de araticum, pé de munguba, pé de
muriti, pé de mutamba. E a lista seguia a perder de vista. E eu a perder as
esperanças. Mais uma vez, nada do tal pé de Tambará.
Como
eu não podia passar a vida procurando, pois tinha prazo para enviar este texto
à redação, acabei por aceitar a ideia de que Tambará, enquanto árvore, não
existe. Pelo menos até onde eu a procurei. Com certeza ela não existe na minha
região, senão eu a teria encontrado. Além do mais, se existisse, meu amigo
saberia.
E
dei o assunto por encerrado. A menos que alguém me apresente a um pé de
Tambará, posso garantir aos amigos leitores que tudo não passou de um pequeno
engano. Que aquela árvore toda torta, de casca grossa, no barranco à beira da
linha é, sem sombra de dúvida, um autêntico e simpático pé da Cambará, como
disse o meu amigo Tino.
Publicado em 12/7/2003
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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