sexta-feira, 3 de julho de 2020


TREVO ITAPEVI/JANDIRA OU ROLETA RUSSA?



D
irigindo a não muito mais que trinta quilômetros por hora, eu desço a rua da igreja. Lá embaixo, o cruzamento. Sem semáforo. Sem sinalização nenhuma.
Diminuo ainda mais a velocidade. Paro e olho para os dois lados. A preferencial é uma rua de duas mãos.
          Ninguém à vista, acelero meu fusca novamente. O fusca 71 que comprei do meu amigo Cláudio Centalvi. Atravesso a ponte, a linha e ganho os rumos da minha vila, Jardim Portela. Subo lentamente pela rua de terra. Se tempo seco, muita poeira. Se época de chuva, muita lama.
        Dirigir pela minha cidade é um exercício de relaxamento. Muito raramente eu encontro outro veículo. Poucos carros, pouco movimento.
          Trafegar pela rua que vai do centro da cidade à fábrica de cimento Santa Rita também não oferece nenhum risco. Sigo passeando, janelas abertas, apreciando a paisagem. Na volta, corto caminho pela estrada de terra que vai do frigorífico à estação de trem. Passo pela ponte de cimento. Olho para o rio. Águas limpas, sem poluição. Tem até peixes!
          À noite, então, uma tranquilidade. Nada de farol alto para atrapalhar minha visão. Passeio pela cidade. Colégio, Igreja, CJC e, de vez em quando, uma “esticadinha” até a Roselândia.
          Sigo meu caminho. Às vezes arrisco uma acelerada mais arrojada e chego perto dos sessenta quilômetros por hora. São tantas emoções!
          Acordo de meus sonhos e encaro a realidade. Acordo exatamente em 2003. Olho para o relógio e vejo que está na hora de voltar para casa. Sofro por antecipação. Sofro só de pensar que vou ter que contar com a sorte para chegar à Castelo, sem nenhum acidente. Passar pelo cruzamento que dá acesso à rodovia fica mais fácil quando podemos contar com a cobertura de um veículo grande. Ônibus ou caminhão, por exemplo. Aquilo é uma verdadeira roleta russa. É para quem gosta do perigo.
          Não sei de estatísticas que falem de acidentes naquele local erroneamente chamado de trevo Itapevi/Jandira. Talvez nem ocorram acidentes. E, aí, única e exclusivamente por conta da sorte.
          E eu estava a me perguntar até quando a sorte estará do nosso lado. Até quando, em um cruzamento com tráfego tão intenso quanto aquele, valerá o critério de quem chegar primeiro. Até quando? E não é que me dão a resposta! Vejam vocês!
      Feliz, dia desses vi uma nota no jornal dizendo que a solução já está a caminho. Que negociações estão sendo feitas para resolver o problema. Ponte, viaduto, túnel, desvio, sei lá. Desde que seja uma solução.
        Feliz e apreensivo. Assustam-me apenas as reuniões, negociações, definições, entendimentos e coisas do gênero, mencionados na notícia. Normalmente isso demora muito. Não conseguem ou têm dificuldade para definir competências. A qual dos governos compete a responsabilidade. A qual cidade competem as providências. Discutem até quem terá o privilégio de ter o nome na placa de inauguração! E aí a coisa empaca.
      Enquanto isso, nós, motoristas, vamos nos virando. Contando com a sorte. Com a coincidência de um veículo maior para nos servir de proteção no cruzamento.
Publicado em 14/6/2003

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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