TREVO ITAPEVI/JANDIRA OU ROLETA RUSSA?
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irigindo a não muito mais que trinta quilômetros por
hora, eu desço a rua da igreja. Lá embaixo, o cruzamento. Sem semáforo. Sem
sinalização nenhuma.
Diminuo
ainda mais a velocidade. Paro e olho para os dois lados. A preferencial é uma
rua de duas mãos.
Ninguém
à vista, acelero meu fusca novamente. O fusca 71 que comprei do meu amigo Cláudio
Centalvi. Atravesso a ponte, a linha e ganho os rumos da minha vila, Jardim
Portela. Subo lentamente pela rua de terra. Se tempo seco, muita poeira. Se
época de chuva, muita lama.
Dirigir
pela minha cidade é um exercício de relaxamento. Muito raramente eu encontro outro
veículo. Poucos carros, pouco movimento.
Trafegar
pela rua que vai do centro da cidade à fábrica de cimento Santa Rita também não
oferece nenhum risco. Sigo passeando, janelas abertas, apreciando a paisagem.
Na volta, corto caminho pela estrada de terra que vai do frigorífico à estação
de trem. Passo pela ponte de cimento. Olho para o rio. Águas limpas, sem
poluição. Tem até peixes!
À
noite, então, uma tranquilidade. Nada de farol alto para atrapalhar minha
visão. Passeio pela cidade. Colégio, Igreja, CJC e, de vez em quando, uma
“esticadinha” até a Roselândia.
Sigo
meu caminho. Às vezes arrisco uma acelerada mais arrojada e chego perto dos
sessenta quilômetros por hora. São tantas emoções!
Acordo
de meus sonhos e encaro a realidade. Acordo exatamente em 2003. Olho para o
relógio e vejo que está na hora de voltar para casa. Sofro por antecipação.
Sofro só de pensar que vou ter que contar com a sorte para chegar à Castelo,
sem nenhum acidente. Passar pelo cruzamento que dá acesso à rodovia fica mais
fácil quando podemos contar com a cobertura de um veículo grande. Ônibus ou
caminhão, por exemplo. Aquilo é uma verdadeira roleta russa. É para quem gosta
do perigo.
Não
sei de estatísticas que falem de acidentes naquele local erroneamente chamado
de trevo Itapevi/Jandira. Talvez nem ocorram acidentes. E, aí, única e
exclusivamente por conta da sorte.
E
eu estava a me perguntar até quando a sorte estará do nosso lado. Até quando,
em um cruzamento com tráfego tão intenso quanto aquele, valerá o critério de
quem chegar primeiro. Até quando? E não é que me dão a resposta! Vejam vocês!
Feliz,
dia desses vi uma nota no jornal dizendo que a solução já está a caminho. Que
negociações estão sendo feitas para resolver o problema. Ponte, viaduto, túnel,
desvio, sei lá. Desde que seja uma solução.
Feliz
e apreensivo. Assustam-me apenas as reuniões, negociações, definições,
entendimentos e coisas do gênero, mencionados na notícia. Normalmente isso
demora muito. Não conseguem ou têm dificuldade para definir competências. A
qual dos governos compete a responsabilidade. A qual cidade competem as
providências. Discutem até quem terá o privilégio de ter o nome na placa de
inauguração! E aí a coisa empaca.
Enquanto
isso, nós, motoristas, vamos nos virando. Contando com a sorte. Com a
coincidência de um veículo maior para nos servir de proteção no
cruzamento.
Publicado em 14/6/2003
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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