ACREDITE, SE QUISER
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ltimamente tem me dado muito prazer abrir os jornais,
ouvir ou assistir aos noticiários de rádio e TV. É muito bom saber que as
pessoas estão comprometidas para solucionar problemas que há muito vêm
perturbando nosso sono.
Mais
ônibus para que o trabalhador não tenha que ficar horas no ponto. Segurança
para que, caso o ônibus se atrase, ele, usuário, não seja assaltado enquanto
espera. Prontos-socorros modernos, com pessoal preparado, educado e que gosta
do que faz.
O
idoso será tratado com respeito. Nada de ir para a fila de madrugada para
receber sua pensão ou ser atendido pelo INSS. Prometem até atendimento
domiciliar para o recadastramento!
As
escolas terão o número de vagas aumentado, para que nenhuma criança fique sem
estudar, e os professores irão sorrindo para o trabalho, felizes com a missão de
educar e com o salário que recebem para cumpri-la.
Os
pais de família terão mais oportunidades de emprego, pois falam em polos
industriais nas cidades, aumentando a oferta de vagas, produto raro nos últimos
tempos. Primeiro emprego? Deixou de ser problema. O adolescente sairá da escola
direto para o trabalho.
Fome?
Nem pensar. Todos terão, no mínimo, suas três refeições diárias.
As
famílias que moram à beira dos rios não terão mais com que se preocupar. Obras
que evitarão inundações estão sendo feitas a toque de caixa. As chuvas podem
começar que serão bem-vindas.
O
sistema de trânsito está sendo revisto e os fiscais serão treinados para
orientar e auxiliar a população. Deixarão de lado a caneta muito usada, até
então e somente, para aplicar multas.
A
natureza receberá atenção especial. Nada de desperdício. Preservar a fauna e
flora será palavra de ordem.
Saneamento
básico, moradia para todos, ruas asfaltadas, atendimento às pessoas carentes,
incentivos às atividades esportivas e culturais, diálogos com representantes da
sociedade. E vai por aí afora.
E
eu, entusiasmado, contava tudo isso para um amigo, quando um desmancha-prazeres
interrompeu. Perguntou se eu não sabia que no próximo ano haveria eleições.
Disse que nessa época é assim mesmo. Que, os que estão mandando, dizem ter
feito bem mais do que quem mandava antes e prometem fazer muito mais ainda.
Vale qualquer coisa para continuar na mamata. Os que pretendem mandar, também
prometem, para ver se conseguem chegar ao poder. Nem têm certeza que
conseguirão cumprir, mas isso não importa. O importante, para eles, é ser
eleito.
Quanto
pessimismo, pensei. Eu acho que o desmancha-prazeres não deve estar bem
informado. Não acredito que sejam apenas promessas.
Afinal,
as informações vêm de fontes que merecem crédito. E não é só isso. Eu sou muito
desconfiado. Costumo acreditar somente em coisas que não deixam a menor dúvida
quanto à possibilidade de acontecer ou existir.
Então,
se eu acredito, não há razão para que você duvide, falei para o meu amigo.
E
fomos embora. Cuidar de nossos afazeres. Era véspera de Natal e eu ainda tinha
que encher meu sapato de capim para colocar na janela. Para que as renas do
Papai Noel tivessem o que comer quando ele viesse trazer o meu presente.
Publicado em
27/12/2003
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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