A conversa estava animada. O assunto parecia extremamente sério. Dois meninos. Duas crianças. Conversavam e gesticulavam como gente grande. Pelas suas expressões, era possível imaginar que falavam de alguma coisa importante. Ora pareciam revoltados, ora tristes e, por vezes, resignados.
Estavam parados em frente ao portão em que eu teria que passar. Fingindo esperar por alguém, eu observava aqueles dois. Tentava ouvir o que diziam.
Não tendo como disfarçar mais, dirigi-me ao portão. Deixaram que eu passasse por eles. Interromperam a conversa por alguns instantes.
Da casa saiu alguém para me atender. Veio ao meu encontro e ficamos conversando próximos aos garotos. Ou melhor, ouvindo o que falavam, já que retomaram a conversa, ignorando nossa presença.
Um deles reclamava. Dizia que não agüenta mais levantar cedo. Fazer lição. Tomar banho. Fazer suas refeições em horários determinados.
Se não escovar os dentes após as refeições vem logo a bronca. À noite, mais banho, mais escova de dente. Pijama. Hora de ir para a cama.
Nem televisão pode assistir até a hora que quiser. Sem falar na programação. Nada de programas ou filmes “pesados”. Vídeo game só depois de cumpridas todas as obrigações.
Na época de provas, então, é um inferno. Brincar, nem pensar. E não adianta o amiguinho, com a bola embaixo do braço, insistindo na porta. Futebol só depois de saber a lição na ponta da língua.
O outro apenas ouvia o desabafo do seu amigo. E ele continuava. Tenho que dizer com quem ando, aonde vou e a que horas volto. Quando chego, tenho que dizer o que estive fazendo. É uma verdadeira marcação individual, como se diz no futebol.
Eu escutava a tudo aquilo e tentava adivinhar de quem aquele garoto estava reclamando.
Não precisei esperar muito. Depois de reclamar de mais uma dezena de recomendações e proibições, ele desabafa de vez:
– Cara, não agüento mais! Quero ser livre, fazer o que quiser, na hora que me der na bola. Sem ninguém “pegando no meu pé”.
O outro menino que, até então, pouco tinha falado, resolve dar sua opinião:
– Eu acho que você está se esquecendo de algumas coisas. Por exemplo, da forma carinhosa como você é despertado toda manhã. Do café quentinho levado até você, ainda na cama. Da ajuda na hora da lição um pouco mais difícil. Do colo quentinho e aconchegante à sua disposição. Da companhia às altas horas da noite porque você não consegue dormir. Dos conselhos que o livram de boas enrascadas. Do abraço apertado toda vez que você chega em casa. Do beijo de todas as noites na hora de dormir...
Tem mais, continuou o amigo. As coisas que você não vê. A preocupação toda vez que você sai. As orações para que nada de ruim lhe aconteça. Os olhos pregados no relógio, contando os minutos. As lágrimas toda vez que você não está muito bem...
Ele continuaria falando por muito mais tempo, não fosse o chamado que os interrompeu. Era hora de ir para escola.
E o menino que, até aquele momento, só tinha reclamado diz para seu amigo:
– Cara, que sorte eu ter alguém para “pegar no meu pé”. Você tem razão, mãe é mãe.

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