Treze de junho. Dia de
Santo Antonio. Céu limpo, azul, meio da tarde, temperatura agradável. Passeando
pela vila, encontro um amigo de infância. Um irmão.
Falamos um pouco da atualidade. Custo de vida,
asfalto, impostos, desemprego, gripe, taxa de iluminação, taxa de lixo,
criminalidade... e resolvemos falar de coisas agradáveis. Saímos andando sem
pressa. Até a caixa d’água. De lá, avista-se toda a cidade. De lá, avista-se
todo o passado.
Meu amigo não
saiu da vila. Acompanhou as mudanças passo a passo. Viu o mato dando lugar às
construções. As estreitas trilhas sendo substituídas por ruas. As frutas
silvestres desaparecendo. Os pequenos animais como a rã, o preá e o tatu,
fugindo com a chegada do homem.
Mas ele guarda
na lembrança o “como era”. Com a mão, desenha no ar o traçado da velha estrada.
Reconstrói cada curva, coloca cada árvore e detalhe em seus devidos lugares,
até chegar à estação.
Asas à
imaginação e todo o cenário se abre à nossa frente. O pé de “orvaia”, a
pitangueira, as amoras vermelhas e as brancas, protegidas pelos espinhos. O
caminho pelo meio do mato, paralelo à estrada. A porteira, o brejo, a cobra
sucuri que ninguém nunca viu, a casa do chefe da estação, o barrancão. A praça
vista do alto. A venda do Jupira, o bar do Constantino e a padaria do Mazzito,
o açougue do Duílio, a farmácia do seu Mário, o armazém do seu
Ângelo, a árvore grande da casa da Prefeitura. A banca de jornal, na cabeceira
da ponte de madeira. A Igreja e a Capelinha.
Avistamos as
casas da Turma, a estação, as placas com o nome da cidade, o banheiro no meio
das plataformas, o bar do Pedro, com suas balas Paulistinha na janela-balcão, a
sala do telégrafo, a sala de espera e a do chefe da estação. Os postes com os
arcos de onde o maquinista pegava a “licença” para seguir viagem, o depósito de
bagagens, a compra que vinha do armazém da Sorocabana, a bilheteria e suas
roletas. O trem de luxo, o trem pagador e, mais tarde, o trem japonês. No alto
do barranco, a casa do Tininho e a casa do Benvindo.
No início da
Presidente Vargas, a casa comprida ali, no lado direito, e, mais adiante, a
casinha solitária, lá para os lados da Cristo Rei. Dessas, confesso que não me
lembrava.
Voltamos,
fomos ver a biquinha. A casa do seu Dante. Antes, a do seu Darcy.
Da janela, um aceno. Seguimos em frente. Passamos pelo “camiinho” que desce em
direção à linha. Paramos um pouco em frente à casa do Chiquinho. Afora uma
grande mangueira a lhe cobrir parte da fachada, nenhuma outra diferença.
Onde está o
cabo de aço? Não o achamos. A caverna, a chuva levou. Lá embaixo, a chácara,
com seus coqueiros e pés de caqui, a Igreja de São José, um pedaço do campo do
Grêmio e o riozinho atrás da sede da Prefeitura.
Passamos pelos sete eucaliptos, pelo campinho e
pelo poço do terreno baldio. O barracão, com sua amoreira. Meu amigo disse que
o barracão provocava arrepios. Ele e a mata perto da curva, com seu formigueiro
e a enorme porca-assombração que, também, ninguém nunca viu.
Meu amigo
lembrou das corridas que meu pai e meu tio Dito organizavam. Das balas como
prêmio, da fantasia com folhas de mamona, do barranco de terra verde, da caneca
de café com leite, dos amigos, dos gibis, das brincadeiras.
Não consegui
me lembrar do nome daquela árvore toda torta e de casca grossa, no barranco à
beira da linha.
É um pé de
cambará, respondeu meu amigo Tino.

E eu tive o privilégio de participar de tudo isso! Ficaram com inveja?
ResponderExcluirMe emocionou. Sempre é bom relembrar. - Leandra
ResponderExcluirAyrton como e bom relembrar tudo isso que escreveu sobre o pe de cambara as vezes chego a me emocionar de relembrar tudo isso mas uma vez digo parabens por nos proporçionar essas historias que e uma realidade... - José Carlos Branco
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