quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O SUPER-HOMEM EXISTE


               As pessoas do interior gostam de contar “causos”.  Não que as das cidades grandes não gostem.  Não contam porque não têm tempo.  Dois dedos de prosa pode custar uma condução perdida,  mais espera no ponto de ônibus, na estação ferroviária ou na fila do metrô.  E, dependendo da situação, até o emprego perdem.
No interior, lá no “interiorzão” mesmo, para o trabalho vão “de a pé” ou a cavalo.   É tudo muito pertinho.  É tudo logo ali.  E aí, o tempo sobra. Sem correria, sem afobação.
As notícias correm de boca em boca.  As novidades custam um pouquinho para chegar, mas chegam.   Nem sempre exatamente como aconteceram, mas chegam.
Estou falando aqui não só do interior, mas de um tempo em que os meios de comunicação eram escassos.  Quando muito, um radinho e olha lá.
Naquele tempo, nada melhor do que ouvir os mais velhos contarem suas histórias.  Parte verídica, parte fantasia. 
Pendurados na porta do meio para clarear dois cômodos, a luz do lampião de querosene ou da lamparina iluminava o cenário onde as assombrações circulavam livremente e tinham a preferência da criançada.
A  mula sem cabeça e o boitatá eram velhos conhecidos.  Mas provocavam arrepios. Deixavam a todos de cabelo em pé.  E o cavaleiro misterioso que toda noite de sexta-feira era visto vagando pelas ruas do pequeno vilarejo !   Com esse ninguém brincava.  Nem com a moça de branco que andava silenciosa e mansamente pelos caminhos estreitos e mais escuros do povoado. 
Ah! Tinha também o lobisomem que nas noites de lua cheia invadia os galinheiros.  Diziam até que era alguém da própria vila. Que tinha as costas das mãos calejadas de tanto andar de quatro. Que se o chamássemos pelo nome, viria buscar sal no dia seguinte.  Verdade ?  Ninguém nunca quis tirar essa dúvida.
Na sala ou perto do fogão à lenha nas noites mais frias, as crianças se reuniam em torno da  Vó Zefa ou da Tia Ana para um pouquinho do medo gostoso antes de irem para a cama.  Difícil era para os que vinham de outras casas.  Lá fora era muito escuro !
Superstições ? Crendices ? Realidade ?  O que importa ?  Eram tão bem contados e com tanta empolgação que ninguém ousava questionar.
Mas o tempo passa e a modernidade influencia não só quem ouve mas também quem conta as histórias.  Outros heróis, outros monstros e outras fantasias tomam conta da cena.  Lobisomem, mula sem cabeça, boitatá e companhia não “colam” mais.  Caíram em total descrédito.  Os cenário e personagens  têm que ser modernizados para atender às exigências dos novos espectadores.
E, por conta dessa modernidade, vejam vocês que outro dia ouvi de uma contadora de histórias antigas, ainda muito lúcida é bom que se diga, que o nascimento de sua sobrinha lhe tinha sido anunciado pelo Super-Homem.  Ela jura que viu o herói dos quadrinhos sobrevoando uma movimentada avenida de uma grande cidade, indicando-lhe o caminho da maternidade.
Isso mesmo, a tia Mi teima em reunir a criançada  -   Ana Glória, Samadhi, Tati, Rê, Vitória, Lê e Renan - em todas as oportunidades e, com pequenas improvisações, repete o privilégio dessa visão. 
Ninguém consegue convencê-la de que se tratava da gravação de uma peça comercial coincidente, de fato, com a data de nascimento de sua querida sobrinha; que o ator não voava de verdade.
Não adianta.  Se insistem, ela ameaça contar a história de um tal de circo.  Sabe-se lá que circo é esse.  Não se arriscam.  E se for uma história longa ?  Pelo menos a do super-herói é curtinha.   

4 comentários:

  1. Ha! Conheço bem essa do Super-Homem!!! - Já anunciava o nascimento de uma publicitária!!!...se é que era um personagem de comercial mesmo... - Tatiana

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  2. Hummmm! tá cutucando a onça com vara curta!

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  3. Prá evitar maiores aborrecimentos, prefiro concordar com a versão da Mi. Sabe´como é! - Pedro Virgilio Corrêa Filho

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  4. E são historias do passado e se existiu ou não não sei mas que muita jente gostava disso eu tenho certeza.. - José Carlos Branco

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