Embora,
à época, isso não significasse risco algum, a caminhada se tornava muito mais
agradável, quando se percebia outras pessoas seguindo na mesma direção, ainda
que distantes umas das outras. Vai que as histórias de assombração fossem
verdadeiras.
Dia
desses me vi em uma situação parecida. Desci do ônibus a alguns quarteirões de
minha casa e me surpreendi desejando seguir sozinho pelas ruas; que ninguém
mais estivesse à vista. Impossível.
Cuidei, então, de apressar os passos.
Precisava ser rápido para não ser alcançado pelo estranho que vinha logo atrás,
mas não o suficiente para alcançar o desconhecido que seguia um pouco mais à
frente.
As
histórias de assaltos e agressões naquele trecho são tão frequentes, que até já
não despertam interesse. A banalização da violência.
Disfarçadamente,
olhei para meu relógio – sim, disfarçadamente, pois ninguém podia saber que eu
tinha um relógio – e vi que não passava muito das sete horas da noite.
Nas
duas margens da rua, muitas casas. Uma ao lado da outra, quase que grudadas.
Todas hermeticamente fechadas e protegidas por altos muros e portões de ferro e,
algumas, monitoradas por câmeras de circuito interno de TV.
À
medida que caminhava, o suor se formava sob minha camisa – e olha que no mês de
julho nem faz tanto calor assim.
O
desconhecido que ia à minha frente entrou em uma rua transversal e sumiu de
vista, ganhou outro rumo. Restou, apenas, o que vinha a alguns metros atrás.
Acelerei um pouco mais, já quase correndo, pois não podia me arriscar a ser
alcançado. Em sentido contrário os carros passavam. Todos com os vidros
fechados e revestidos com película escura que impedia de ver seus ocupantes.
Procurando
disfarçar, olhei para trás e vi que o estranho que “me seguia” estava tocando a
campainha de uma das casas. Mais alguns passos, olhei novamente e vi que lhe
abriram o portão e ele sumiu da minha vista.
Continuei
caminhando apressadamente. Esbaforido, cheguei em casa e me acomodei em uma cadeira
para recuperar o fôlego. E senti saudade do medo de assombração.

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ResponderExcluircomo sempre "PERFEITO" adoro seus textos.
ResponderExcluiramei Ayrton Corrêa..... Rosana
ResponderExcluirBelíssimo texto, como aliás de costume. - Vital
ResponderExcluirentão voce fcou com medo né eu não sabia desse lado, mas hoje ao inves de esperar a gente corre e sente medo mesmo.
ResponderExcluirangela
entao voce tem medo né, eu não conhecia esse seu lado mas na epoca de hoje, a gente prefere andar sozino mesmo, pois quando tem alguem na rua a gente fica com medo, mas eu tambem não quero assombração.
ResponderExcluirangela
Medo! - Alinne
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