domingo, 11 de agosto de 2013

MODERNIZANDO O MEDO

           
Eu também tinha medo de andar por caminhos escuros e desertos. Mas não conseguia evitá-los. Chegava à pequena estação da minha cidade, por volta da meia noite. O trem seguia seu caminho, deixando para trás apenas o silêncio.

                    A pequena multidão seguia em direção ao centro, enquanto eu saía pelos fundos da plataforma e, por uma estrada escura, ladeada de mato e barranco, caminhava algumas centenas de metros, até alcançar o bairro em que morava.
Embora, à época, isso não significasse risco algum, a caminhada se tornava muito mais agradável, quando se percebia outras pessoas seguindo na mesma direção, ainda que distantes umas das outras. Vai que as histórias de assombração fossem verdadeiras.
Dia desses me vi em uma situação parecida. Desci do ônibus a alguns quarteirões de minha casa e me surpreendi desejando seguir sozinho pelas ruas; que ninguém mais estivesse à vista. Impossível.
 Cuidei, então, de apressar os passos. Precisava ser rápido para não ser alcançado pelo estranho que vinha logo atrás, mas não o suficiente para alcançar o desconhecido que seguia um pouco mais à frente.
As histórias de assaltos e agressões naquele trecho são tão frequentes, que até já não despertam interesse. A banalização da violência.
Disfarçadamente, olhei para meu relógio – sim, disfarçadamente, pois ninguém podia saber que eu tinha um relógio – e vi que não passava muito das sete horas da noite.
Nas duas margens da rua, muitas casas. Uma ao lado da outra, quase que grudadas. Todas hermeticamente fechadas e protegidas por altos muros e portões de ferro e, algumas, monitoradas por câmeras de circuito interno de TV.
À medida que caminhava, o suor se formava sob minha camisa – e olha que no mês de julho nem faz tanto calor assim.
O desconhecido que ia à minha frente entrou em uma rua transversal e sumiu de vista, ganhou outro rumo. Restou, apenas, o que vinha a alguns metros atrás. Acelerei um pouco mais, já quase correndo, pois não podia me arriscar a ser alcançado. Em sentido contrário os carros passavam. Todos com os vidros fechados e revestidos com película escura que impedia de ver seus ocupantes.
Procurando disfarçar, olhei para trás e vi que o estranho que “me seguia” estava tocando a campainha de uma das casas. Mais alguns passos, olhei novamente e vi que lhe abriram o portão e ele sumiu da minha vista.

Continuei caminhando apressadamente. Esbaforido, cheguei em casa e me acomodei em uma cadeira para recuperar o fôlego. E senti saudade do medo de assombração. 

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. como sempre "PERFEITO" adoro seus textos.

    ResponderExcluir
  3. amei Ayrton Corrêa..... Rosana

    ResponderExcluir
  4. Belíssimo texto, como aliás de costume. - Vital

    ResponderExcluir
  5. então voce fcou com medo né eu não sabia desse lado, mas hoje ao inves de esperar a gente corre e sente medo mesmo.
    angela

    ResponderExcluir
  6. entao voce tem medo né, eu não conhecia esse seu lado mas na epoca de hoje, a gente prefere andar sozino mesmo, pois quando tem alguem na rua a gente fica com medo, mas eu tambem não quero assombração.
    angela

    ResponderExcluir

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...