domingo, 28 de julho de 2013

VASCULHANDO LIXO

Minha rua é estreita. Estreita quanto? Bem, estreita o suficiente para não caberem, lado a lado, o caminhão do lixo e um carro pequeno. Por conta disso, no horário de coleta, forma-se uma extensa fila indiana atrás do caminhão. Tem como evitar isso, agradando a todos? Não. Se fazem a coleta durante a noite, atrapalham os querem dormir; se a fazem, durante o dia, atrapalham o trânsito e, em fins de semana, atrapalham os querem sossego.
Na fila, dias desses, fiquei observando o trabalho apressado dos empregados responsáveis pela coleta, enquanto, impacientes, os motoristas acionavam suas buzinas insistentemente.
Notei, também, que nem bem o caminhão passava por um quarteirão, algum cidadão – se é que pode ser chamado de cidadão – jogava lixo na calçada ou no meio da rua. Bem, esse é assunto para outra hora.
Como dizia, eu estava na fila encabeçada pelo caminhão de coleta de lixo e, enquanto esperava, viajei a um passado não muito distante, quando o lixo, onde eu morava, recebia outro tipo de tratamento.
Primeiro vale ressaltar que, naquele tempo, não se jogava tanta coisa fora. As embalagens, em sua maioria, eram de papel, os vasilhames de vidro eram trocados no ato de cada compra e as embalagens de lata, muito frequentemente, eram aproveitas como utensílio do dia a dia. As latas menores se transformavam em canecas, as maiores, como as de marmelada, eram usadas para servir alimento aos animais e, até mesmo, como prato para as refeições das pessoas. Havia, ainda, as latas grandes, que vinham com óleo ou querosene, por exemplo, e eram utilizadas como balde para água, cortadas para que pudessem ser transformadas em bacias ou regadores ou, ainda, usadas para acondicionar alimentos conservados em gordura.
Como se pode ver, a ordem do dia era reaproveitar o máximo possível e evitar desperdícios.
Sobrava, então, o que não podia ser reciclado por meios domésticos. O lixo orgânico ia para um buraco cavado no fundo do quintal e que, depois de cheio, era tampado com terra para, mais tarde, servir de adubo nas hortas, jardins e pomares.
Garrafas, vendidas nos bares. Vidros em cacos, alumínio, latas e fios de cobre, vendidos para o homem do ferro velho que providenciava a destinação adequada para cada tipo de material.
Depois, aos poucos, o saco de papel foi trocado pelo de plástico, as garrafas plásticas substituíram as de vidro e passaram a ser descartáveis, as latas deram lugar às embalagens plásticas e as sobras de alimento se misturaram a isso tudo, transformando o lixo num tremendo amontoado de objetos não identificados.
Bem, a fila começa a andar. Na calçada, um pouco à frente do caminhão, um garoto procura, no lixo, algo que possa ser aproveitado. Com método e apressado, tateia os sacos plásticos que, em minutos, serão recolhidos pelos homens da coleta.

A procura por algo no lixo não me é uma imagem desconhecida. A diferença, no entanto, está em que, no meu tempo, apenas cães e gatos vasculhavam lixo e tenho observado que, nos tempos atuais, crianças e idosos o fazem cada vez com mais frequência. 

2 comentários:

  1. E eu já ouvi de muitos jovens, que nós não cuidávamos do planeta como ele devia ser cuidado... - Cecilia Breda

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  2. É meu amigo.....o homem constrói para a auto destruição......quem será que cuida ou cuidava melhor dos nossos "descartáveis"???? Aliás, lindo texto Ayrton.
    Abçs, Mazé Conde

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