Minha
rua é estreita. Estreita quanto? Bem, estreita o suficiente para não caberem,
lado a lado, o caminhão do lixo e um carro pequeno. Por conta disso, no horário
de coleta, forma-se uma extensa fila indiana atrás do caminhão. Tem como evitar
isso, agradando a todos? Não. Se fazem a coleta durante a noite, atrapalham os
querem dormir; se a fazem, durante o dia, atrapalham o trânsito e, em fins de
semana, atrapalham os querem sossego.
Na
fila, dias desses, fiquei observando o trabalho apressado dos empregados responsáveis
pela coleta, enquanto, impacientes, os motoristas acionavam suas buzinas
insistentemente.
Notei,
também, que nem bem o caminhão passava por um quarteirão, algum cidadão – se é que
pode ser chamado de cidadão – jogava lixo na calçada ou no meio da rua. Bem,
esse é assunto para outra hora.
Como
dizia, eu estava na fila encabeçada pelo caminhão de coleta de lixo e, enquanto
esperava, viajei a um passado não muito distante, quando o lixo, onde eu
morava, recebia outro tipo de tratamento.
Primeiro
vale ressaltar que, naquele tempo, não se jogava tanta coisa fora. As
embalagens, em sua maioria, eram de papel, os vasilhames de vidro eram trocados
no ato de cada compra e as embalagens de lata, muito frequentemente, eram
aproveitas como utensílio do dia a dia. As latas menores se transformavam em
canecas, as maiores, como as de marmelada, eram usadas para servir alimento aos
animais e, até mesmo, como prato para as refeições das pessoas. Havia, ainda,
as latas grandes, que vinham com óleo ou querosene, por exemplo, e eram
utilizadas como balde para água, cortadas para que pudessem ser transformadas
em bacias ou regadores ou, ainda, usadas para acondicionar alimentos
conservados em gordura.
Como
se pode ver, a ordem do dia era reaproveitar o máximo possível e evitar
desperdícios.
Sobrava,
então, o que não podia ser reciclado por meios domésticos. O lixo orgânico ia
para um buraco cavado no fundo do quintal e que, depois de cheio, era tampado
com terra para, mais tarde, servir de adubo nas hortas, jardins e pomares.
Garrafas,
vendidas nos bares. Vidros em cacos, alumínio, latas e fios de cobre, vendidos
para o homem do ferro velho que providenciava a destinação adequada para cada
tipo de material.
Depois,
aos poucos, o saco de papel foi trocado pelo de plástico, as garrafas plásticas
substituíram as de vidro e passaram a ser descartáveis, as latas deram lugar às
embalagens plásticas e as sobras de alimento se misturaram a isso tudo,
transformando o lixo num tremendo amontoado de objetos não identificados.
Bem,
a fila começa a andar. Na calçada, um pouco à frente do caminhão, um garoto
procura, no lixo, algo que possa ser aproveitado. Com método e apressado,
tateia os sacos plásticos que, em minutos, serão recolhidos pelos homens da
coleta.
A
procura por algo no lixo não me é uma imagem desconhecida. A diferença, no
entanto, está em que, no meu tempo, apenas cães e gatos vasculhavam lixo e
tenho observado que, nos tempos atuais, crianças e idosos o fazem cada vez com mais
frequência.

E eu já ouvi de muitos jovens, que nós não cuidávamos do planeta como ele devia ser cuidado... - Cecilia Breda
ResponderExcluirÉ meu amigo.....o homem constrói para a auto destruição......quem será que cuida ou cuidava melhor dos nossos "descartáveis"???? Aliás, lindo texto Ayrton.
ResponderExcluirAbçs, Mazé Conde