As pessoas do interior gostam de contar
“causos”. Não que as das cidades grandes
não gostem. Não contam porque não têm
tempo. Dois dedos de prosa podem custar uma condução perdida, mais espera no ponto
de ônibus, na estação ferroviária ou na fila do metrô. E, dependendo da situação, até o emprego
perdem.
No interior, lá
no “interiorzão” mesmo, lá na minha cidade, para
o trabalho, iam “de a pé” ou “de a cavalo”.
Era tudo muito pertinho. Era tudo
logo ali. E aí o tempo sobrava. Sem
correria, sem afobação.
As notícias corriam de boca em boca. As novidades custavam um pouquinho para
chegar, mas chegavam. Nem sempre
exatamente como aconteceram, mas chegavam.
Estou falando
aqui não só do interior, mas de um
tempo em que os meios de comunicação eram
escassos. Quando muito, um radinho e olha lá.
Naquele tempo,
nada melhor do que ouvir os mais velhos contarem suas histórias. Parte verídica, parte fantasia.
Pendurados na porta do meio, para clarear dois
cômodos, o lampião “de querosene” ou a lamparina iluminavam o cenário onde as
assombrações circulavam livremente e tinham a preferência da criançada.
A mula-sem-cabeça e o boitatá
eram velhos conhecidos. Mas provocavam
arrepios. Deixavam a todos de cabelo em pé.
E o cavaleiro misterioso que toda noite de sexta-feira era visto vagando
pelas ruas do pequeno vilarejo! Com
esse, então, ninguém brincava. Nem com a
moça de branco que andava silenciosa e mansamente pelos caminhos estreitos e
mais escuros do povoado.
Ah! Tinha
também o lobisomem que nas noites de lua cheia invadia os galinheiros. Diziam, até, que era alguém da própria vila.
Que se quiséssemos saber quem era, bastava pedir para que ele viesse buscar sal
no dia seguinte. Verdade? Ninguém nunca quis tirar essa dúvida.
Na sala ou
perto do fogão à lenha nas noites mais frias, as crianças se reuniam em torno dos
mais velhos, para as histórias de assombração, para um pouquinho do medo
gostoso antes de irem para a cama.
Difícil era para os que vinham de outras casas. Lá fora era muito escuro!
Superstições? Crendices? Realidade? O que importa? Eram tão bem contados e com tanta empolgação
que ninguém ousava questionar.
Mas o tempo
passa e a modernidade muda os rumos, não só de quem ouve, mas, também, de quem
conta as histórias. Outros heróis,
outros monstros e outras fantasias tomam conta da cena. Lobisomem, mula-sem-cabeça, boitatá e
companhia não “colam” mais. Caíram em
total descrédito. Os cenários e
personagens modernos podem ser vistos a qualquer hora, nas revistas
especializadas e nos meios eletrônicos.
E os contadores
de histórias antigas andam calados pelos cantos, repassando suas memórias, na
esperança de um dia encontrar quem ainda queira ouvi-los. Perambulando, como os personagens dos causos
que contavam.



Vc esqueceu de citar o causo do piano! Rsrsrs. - Ana Glória
ResponderExcluirAyrton lembro -me de quando eu ia lá em Alumínio, na casa de uma prima nossa, Lavínia, irmã do Rui e meu pai e outros que não recordo o nome , reuniam todos nós, crianças, kkkkk e contavam vários causos, uns engraçados, outros . horripilantes. Enfim, no final ninguém queria dormir. Muito bem lembrado.Abraços. - Leandra Corrêa Branquinho
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