domingo, 21 de julho de 2013

CONTADORES DE CAUSOS

                   
As pessoas do interior gostam de contar “causos”.  Não que as das cidades grandes não gostem.  Não contam porque não têm tempo.  Dois dedos de prosa podem custar uma condução perdida, mais espera no ponto de ônibus, na estação ferroviária ou na fila do metrô.  E, dependendo da situação, até o emprego perdem.

No interior, lá no “interiorzão” mesmo, lá na minha cidade, para o trabalho, iam “de a pé” ou “de a cavalo”.   Era tudo muito pertinho.  Era tudo logo ali.  E aí o tempo sobrava. Sem correria, sem afobação.
As notícias corriam de boca em boca.  As novidades custavam um pouquinho para chegar, mas chegavam.   Nem sempre exatamente como aconteceram, mas chegavam.
Estou falando aqui não só do interior, mas de um
tempo em que os meios de comunicação eram escassos.  Quando muito, um radinho e olha lá.
Naquele tempo, nada melhor do que ouvir os mais velhos contarem suas histórias.  Parte verídica, parte fantasia. 
Pendurados na porta do meio, para clarear dois cômodos, o lampião “de querosene” ou a lamparina iluminavam o cenário onde as assombrações circulavam livremente e tinham a preferência da criançada.
A mula-sem-cabeça e o boitatá eram velhos conhecidos.  Mas provocavam arrepios. Deixavam a todos de cabelo em pé.  E o cavaleiro misterioso que toda noite de sexta-feira era visto vagando pelas ruas do pequeno vilarejo!   Com esse, então, ninguém brincava.  Nem com a moça de branco que andava silenciosa e mansamente pelos caminhos estreitos e mais escuros do povoado. 
Ah! Tinha também o lobisomem que nas noites de lua cheia invadia os galinheiros.  Diziam, até, que era alguém da própria vila. Que se quiséssemos saber quem era, bastava pedir para que ele viesse buscar sal no dia seguinte.  Verdade?  Ninguém nunca quis tirar essa dúvida.
Na sala ou perto do fogão à lenha nas noites mais frias, as crianças se reuniam em torno dos mais velhos, para as histórias de assombração, para um pouquinho do medo gostoso antes de irem para a cama.  Difícil era para os que vinham de outras casas.  Lá fora era muito escuro!
Superstições? Crendices? Realidade?  O que importa?  Eram tão bem contados e com tanta empolgação que ninguém ousava questionar.
Mas o tempo passa e a modernidade muda os rumos, não só de quem ouve, mas, também, de quem conta as histórias.  Outros heróis, outros monstros e outras fantasias tomam conta da cena.  Lobisomem, mula-sem-cabeça, boitatá e companhia não “colam” mais.  Caíram em total descrédito.  Os cenários e personagens modernos podem ser vistos a qualquer hora, nas revistas especializadas e nos meios eletrônicos.

E os contadores de histórias antigas andam calados pelos cantos, repassando suas memórias, na esperança de um dia encontrar quem ainda queira ouvi-los.  Perambulando, como os personagens dos causos que contavam.

2 comentários:

  1. Vc esqueceu de citar o causo do piano! Rsrsrs. - Ana Glória

    ResponderExcluir
  2. Ayrton lembro -me de quando eu ia lá em Alumínio, na casa de uma prima nossa, Lavínia, irmã do Rui e meu pai e outros que não recordo o nome , reuniam todos nós, crianças, kkkkk e contavam vários causos, uns engraçados, outros . horripilantes. Enfim, no final ninguém queria dormir. Muito bem lembrado.Abraços. - Leandra Corrêa Branquinho

    ResponderExcluir

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...