segunda-feira, 1 de julho de 2013

TRADIÇÃO É COISA DO PASSADO

Num canto, logo depois do portão de tela, um aparelho de televisão. À sua volta, um grupo se esgoelava nas músicas do videoquê  Com passos indecisos, entrei. À esquerda, algumas barracas pareciam indicar que eu estava no lugar certo. Churrasquinho, churro, pizza, refrigerante, sanduíche, pastel e ficha no caixa. Dúvida.
As pessoas andavam de um lado para outro. Até aí, nada de anormal. Lá no fundo, um palco em armação metálica. Embora um pouco diferente dos que eu conhecia, parecia servir para uma mesma finalidade. Acotovelando-me em meio à multidão que começava a se formar, fui naquela direção. Estranho... um amontoado de fios cruzava o piso da  barraca.
 Você pode me dizer onde vai acontecer o leilão? – Leilão, tio, sei não – a menina fez uma careta como se eu tivesse lhe dirigido um palavrão e sumiu no meio do povo.  Ei, onde está o mastro com as bandeiras dos três santos? – Que três santos, tio? – Ora, Santo Antonio, São João e São Pedro, os santos juninos.  – Não “conheço eles” não, tio. A única bandeira que eu sei está ali no pátio e é a do Brasil. Também pudera, estamos no mês da Copa – falou e saiu correndo na direção de uma das barracas.
De repente, parecia que o mundo estava vindo abaixo. Sem que eu me desse conta, um grupo havia tomado lugar no “coreto” e iniciou o teste dos instrumentos. Procurei me afastar dali o mais rápido possível. Fui para o outro lado do pátio. Uma festeira – identificada por um crachá – parou ao meu lado.
 Moça – falei quase gritando para vencer o som da banda – onde fica a barraca do coelhinho? – Hã! – E a fogueira? – Hã! – Então me diga, onde fica o pau-de-sebo? – Hã!  – Nisso a banda fez um intervalo e eu pude me fazer entender melhor. Moça, eu estou meio perdido; acho até que errei de endereço – parece que ela ficou com pena da minha cara, pois se mostrou disposta a ajudar. Eu vim mais cedo para arrematar algumas prendas no leilão e ficar até a queima de fogos. Só que eu não estou conseguindo me localizar. Quem vai se apresentar naquele palco, depois dessa turma que ligou os aparelhos? – Vem um grupo de pagode, depois um de reggae e um de rock. O sanfoneiro vai tocar onde? E a dupla de violeiros? Perguntei, porque me lembrei do Leque e do tio Dito com suas sanfonas e do Roseiro e Roseirinho, uma dupla de caipiras que cantava lá na minha cidade. Onde está o pipoqueiro? E a quadrilha? E o carrinho de algodão doce? A maçã do amor, eu compro onde? Olha, eu gostaria de oferecer uma música, como eu faço? Sabe, depois eu quero, também, mandar um correio elegante...
A festeira me olhou com uns olhos esbugalhados, como se estivesse vendo uma alma penada ou alguém de outro planeta. Resmungou alguma coisa que eu não entendi muito bem. Limpou o suor da testa e foi se afastando de costas e bem devagarzinho. Quando estava à uma distância segura, virou-se e escafedeu-se no meio da festa.

Saí dali com a certeza absoluta de que eu havia me enganado de endereço. Cheguei em casa e fui me certificar. Na gaveta, em meio a outros papéis, consegui localizar. O convite ainda estava lá. “Não percam! Dia tal, tal hora, na escola tal, a grandiosa Festa Junina!” Li novamente para confirmar. Não, eu não estivera no endereço errado, nem na data ou hora errada. Aquilo de onde eu acabara de chegar era uma festa junina. Apenas, eu não soubera reconhecê-la. 

Um comentário:

  1. Muito legal, muito bem escrito....e que pena que os dias sejam assim.......bjs, Maze'

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