Num canto,
logo depois do portão de tela, um aparelho de televisão. À sua volta, um grupo
se esgoelava nas músicas do videoquê Com passos indecisos, entrei. À esquerda,
algumas barracas pareciam indicar que eu estava no lugar certo. Churrasquinho,
churro, pizza, refrigerante, sanduíche, pastel e ficha no caixa. Dúvida.
As pessoas
andavam de um lado para outro. Até aí, nada de anormal. Lá no fundo, um palco
em armação metálica. Embora um pouco diferente dos que eu conhecia, parecia
servir para uma mesma finalidade. Acotovelando-me em meio à multidão que
começava a se formar, fui naquela direção. Estranho... um amontoado de fios
cruzava o piso da barraca.
– Você pode me dizer onde
vai acontecer o leilão? – Leilão, tio, sei não – a menina fez uma careta como
se eu tivesse lhe dirigido um palavrão e sumiu no meio do povo. – Ei, onde está
o mastro com as bandeiras dos três santos? – Que três santos, tio? – Ora, Santo
Antonio, São João e São Pedro, os santos juninos. – Não “conheço eles” não, tio. A única
bandeira que eu sei está ali no pátio e é a do Brasil. Também pudera, estamos
no mês da Copa – falou e saiu correndo na direção de uma das barracas.
De repente,
parecia que o mundo estava vindo abaixo. Sem que eu me desse conta, um grupo
havia tomado lugar no “coreto” e iniciou o teste dos instrumentos. Procurei me
afastar dali o mais rápido possível. Fui para o outro lado do pátio. Uma
festeira – identificada por um crachá – parou ao meu lado.
– Moça – falei
quase gritando para vencer o som da banda – onde fica a barraca do coelhinho? –
Hã! – E a fogueira? – Hã! – Então me diga, onde fica o pau-de-sebo? – Hã! – Nisso a banda fez um intervalo e eu pude me
fazer entender melhor. Moça, eu estou meio perdido; acho até que errei de
endereço – parece que ela ficou com pena da minha cara, pois se mostrou
disposta a ajudar. Eu vim mais cedo para arrematar algumas prendas no leilão e
ficar até a queima de fogos. Só que eu não estou conseguindo me localizar. Quem
vai se apresentar naquele palco, depois dessa turma que ligou os aparelhos? –
Vem um grupo de pagode, depois um de reggae e um de rock. O sanfoneiro vai
tocar onde? E a dupla de violeiros? Perguntei, porque me lembrei do Leque e do
tio Dito com suas sanfonas e do Roseiro e Roseirinho, uma dupla de caipiras que
cantava lá na minha cidade. Onde está o pipoqueiro? E a quadrilha? E o carrinho
de algodão doce? A maçã do amor, eu compro onde? Olha, eu gostaria de oferecer
uma música, como eu faço? Sabe, depois eu quero, também, mandar um correio
elegante...
A festeira me
olhou com uns olhos esbugalhados, como se estivesse vendo uma alma penada ou
alguém de outro planeta. Resmungou alguma coisa que eu não entendi muito bem.
Limpou o suor da testa e foi se afastando de costas e bem devagarzinho. Quando
estava à uma distância segura, virou-se e escafedeu-se no meio da festa.
Saí dali com a certeza
absoluta de que eu havia me enganado de endereço. Cheguei em casa e fui me
certificar. Na gaveta, em meio a outros papéis, consegui localizar. O convite
ainda estava lá. “Não percam! Dia tal, tal hora, na escola tal, a grandiosa Festa
Junina!” Li novamente para confirmar. Não, eu não estivera no endereço errado,
nem na data ou hora errada. Aquilo de onde eu acabara de chegar era uma festa
junina. Apenas, eu não soubera reconhecê-la.

Muito legal, muito bem escrito....e que pena que os dias sejam assim.......bjs, Maze'
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