terça-feira, 20 de agosto de 2019


AS VANTAGENS DE UM BRAÇO QUEBRADO



E
le estava deitado no sofá da sala quando alguém se sentou em seu braço. Fratura exposta. Fiz um curativo de emergência e passei um bom tempo sem ter que me preocupar com o incidente.
Um dia desses achei que ele não estava muito bom. Meio desafinado e com um som meio abafado. Dei uma olhada e vi que o reparo que eu havia feito estava se soltando e que suas cordas não seguravam mais a afinação. O caso era realmente muito grave, pois até meus ouvidos perceberam que ele andava meio desafinado.
Eu acho que ele se “machucou” de propósito, para descansar um pouco. Já estava cheio de ser maltratado e de tocar sempre a mesma meia dúzia de músicas.
Meu irmão me falou de um amigo que conserta violão, e lá fomos nós. Logo ali, na rua de trás. Atendimento de primeira. Um rápido diagnóstico concluiu que o caso era de cirurgia, ou seja, meu violão teria que ficar internado. Mas sem preocupação, porque ele ficaria melhor que novo.
Emergência atendida, aproveitamos para bater um pouco de papo. Falar um pouco de tudo. O amigo do meu irmão, que agora também é meu amigo, chegou a Itapevi com um ano de idade. Eu também. No pouco tempo que conversamos deu pra ver que, assim como eu, meu novo amigo gosta um bocado da cidade. E “garramo” a conversar.
Jogou futebol no meio de outros craques como ele. Enquanto trabalhava construindo instrumentos musicais, fazia arte nos gramados da cidade. Lateral esquerdo, sem nunca ter sido canhoteiro. Foi suspenso porque faltou ao jogo... no dia de seu casamento. Ficou no banco, porque o protegido de um cartola tinha que jogar. Coisas do futebol. Grudento na marcação, a ponto de o adversário jogar areia em seus olhos para escapar. 
Lembramo-nos do trem, do pau de arara das cinco e vinte e oito. Do pessoal que morava nas casas da Turma, ao lado da linha, perto do pontilhão. Do vendedor de bilhetes, do seu Chicão, que tomava conta da roleta da estação; do chefe de trem e do fiscal. Do bar da estação, da ponte de madeira e dos engraxates. Ele foi engraxate.
Falamos dos bares da praça, da bicicletaria, da carvoaria, da pista para corrida de cavalos. Do tempo em que andar em cavalos alheios, soltos nos pastos, era uma grande diversão. Lembramo-nos da sede do América.
O Rubinho, esse meu amigo, tem uma fôrma antiga de tijolos e eu tenho um ferro de passar roupas, aquecido a carvão. Temos fotos amareladas pelo tempo. Temos histórias para contar. Coisas para lembrar. Na maioria delas, agradáveis.
Lamentamos a falta de campos de futebol. Lamentamos a falta de um centro histórico, museu, memorial ou biblioteca, não sabemos que nome deva ter. Um espaço para a preservação da história da cidade. Um lugar onde as pessoas pudessem dar seus depoimentos, expor fotos e objetos que contribuam para o entendimento de nossas origens.
Hoje, além de um violão em ótimo estado de saúde, tenho mais um amigo na minha cidade.
Ah, o acidentado teve alta depois de trinta dias. Tempo muito curto, na opinião dos meus vizinhos.
Texto publicado em 24/9/2005

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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