AS VANTAGENS
DE UM BRAÇO QUEBRADO
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E
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le estava deitado no sofá da sala quando alguém se sentou
em seu braço. Fratura exposta. Fiz um curativo de emergência e passei um bom
tempo sem ter que me preocupar com o incidente.
Um
dia desses achei que ele não estava muito bom. Meio desafinado e com um som
meio abafado. Dei uma olhada e vi que o reparo que eu havia feito estava se
soltando e que suas cordas não seguravam mais a afinação. O caso era realmente
muito grave, pois até meus ouvidos perceberam que ele andava meio desafinado.
Eu
acho que ele se “machucou” de propósito, para descansar um pouco. Já estava
cheio de ser maltratado e de tocar sempre a mesma meia dúzia de músicas.
Meu
irmão me falou de um amigo que conserta violão, e lá fomos nós. Logo ali, na
rua de trás. Atendimento de primeira. Um rápido diagnóstico concluiu que o caso
era de cirurgia, ou seja, meu violão teria que ficar internado. Mas sem
preocupação, porque ele ficaria melhor que novo.
Emergência
atendida, aproveitamos para bater um pouco de papo. Falar um pouco de tudo. O
amigo do meu irmão, que agora também é meu amigo, chegou a Itapevi com um ano
de idade. Eu também. No pouco tempo que conversamos deu pra ver que, assim como
eu, meu novo amigo gosta um bocado da cidade. E “garramo” a conversar.
Jogou
futebol no meio de outros craques como ele. Enquanto trabalhava construindo
instrumentos musicais, fazia arte nos gramados da cidade. Lateral esquerdo, sem
nunca ter sido canhoteiro. Foi suspenso porque faltou ao jogo... no dia de seu
casamento. Ficou no banco, porque o protegido de um cartola tinha que jogar.
Coisas do futebol. Grudento na marcação, a ponto de o adversário jogar areia em
seus olhos para escapar.
Lembramo-nos
do trem, do pau de arara das cinco e vinte e oito. Do pessoal que morava nas
casas da Turma, ao lado da linha, perto do pontilhão. Do vendedor de bilhetes,
do seu Chicão, que tomava conta da roleta da estação; do chefe de trem e do
fiscal. Do bar da estação, da ponte de madeira e dos engraxates. Ele foi
engraxate.
Falamos
dos bares da praça, da bicicletaria, da carvoaria, da pista para corrida de cavalos.
Do tempo em que andar em cavalos alheios, soltos nos pastos, era uma grande
diversão. Lembramo-nos da sede do América.
O
Rubinho, esse meu amigo, tem uma fôrma antiga de tijolos e eu tenho um ferro de
passar roupas, aquecido a carvão. Temos fotos amareladas pelo tempo. Temos
histórias para contar. Coisas para lembrar. Na maioria delas, agradáveis.
Lamentamos
a falta de campos de futebol. Lamentamos a falta de um centro histórico, museu,
memorial ou biblioteca, não sabemos que nome deva ter. Um
espaço para a preservação da história da cidade. Um lugar onde as pessoas
pudessem dar seus depoimentos, expor fotos e objetos que contribuam para o
entendimento de nossas origens.
Hoje,
além de um violão em ótimo estado de saúde, tenho mais um amigo na minha cidade.
Ah,
o acidentado teve alta depois de trinta dias. Tempo muito curto, na opinião dos
meus vizinhos.
Texto
publicado em 24/9/2005
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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