quarta-feira, 7 de agosto de 2019


BRINCANDO DE PASSAR ANEL



F
ica um pouco mais difícil contar histórias em momentos de turbulência. Até que tentei escrever mais um episódio da farra do boi. Não consegui. Arrisquei um outro assunto qualquer. Empaquei. Pensei em pedir para que o editor repetisse uma das crônicas já publicadas. Desisti da ideia.
         O tempo passava. O prazo para envio da matéria ao jornal se esgotava e eu não saía do primeiro parágrafo. Decididamente, minha inspiração para a farra do boi tinha ido para o brejo, arrastada pela lama formada com a farra dos homens. 
       Dava uma parada, tomava um pouco de ar e voltava ao texto. Começava a escrever e a lembrança das últimas notícias se repetia na mesma rapidez com que aconteceram os fatos, atrapalhando meu raciocínio.
       “Dra. Ruth vence a eleição e é a nova prefeita da cidade”. Sua vitória agradou a alguns e frustrou a expectativa de outros tantos. Normal. Agradar a todos é impossível. Novos dirigentes. Nova filosofia de administração. Novos rumos.
     “Dra. Ruth é afastada de seu cargo, sob acusação de irregularidades na campanha eleitoral”. Deverá ficar à parte, até que se apure a consistência dessas acusações. Passados mais ou menos três meses da posse. Para a cidade um baque. Uma interrupção inconveniente e prejudicial. Necessária, no entanto, para que se coloque tudo em pratos limpos.
        “Interinamente, o cargo de prefeito será ocupado pelo Sr. Montanheiro, presidente da Câmara”. Isso porque o vice-prefeito eleito também foi afastado. Menos mal, pensei. Pelos menos a rotina não para. A minha preocupação era com os serviços básicos, como educação, saúde e segurança. Ainda bem que não estão interrompidos.
     Agora tudo se acomoda. Processo em andamento e governo interino, até que se esclareça a verdade dos fatos. Nada com que se preocupar.
      Ledo engano. As notícias não pararam por aí. “Sra. Dalvani toma posse como prefeita da cidade. O Sr. Montanheiro, consequentemente, é afastado do cargo.” Estranhei, mas fiquei tranquilo, quando li a integra da notícia. A posse foi determinada por decisão judicial. Portanto, de acordo com a lei.  Basta aguardar a conclusão do processo que afastou a Dra. Ruth e tudo estará resolvido. Enganei-me novamente. “A justiça afasta a Sra. Dalvani e reconduz o Sr. Montanheiro ao comando interino da prefeitura”.
      Começo a achar, então, que essa história, infelizmente, está indo longe demais. Tentando me lembrar de onde eu conhecia algo parecido, fui parar lá na minha infância. Na brincadeira do passa anel. As crianças ficavam sentadas em círculo, mãos estendidas. Uma delas escolhia com quem deixar o anel, a quem transferir o comando. A brincadeira seguia em frente e o anel, símbolo do poder, mudava de mãos, rápida e continuamente. Rápida e inocentemente. Sem causar danos a ninguém.
      Talvez, com saudades da infância, essas pessoas tenham resolvido brincar um pouco. Recordar o passado, brincando de passar anel. Mudar o poder de mão em mão, rápida e continuamente. Rápida e perigosamente. Sem se importar com os riscos de sérios danos a toda uma cidade. E eu fico esperando que essa brincadeira termine logo. Não vejo a menor graça no que estão fazendo. E espero por um final feliz e sensato. Afinal, estão brincando, irresponsavelmente, com a sorte de milhares de pessoas.
    E, quando tudo estiver resolvido, corro para o brejo, recupero minha inspiração e volto a falar sobre a farra do boi.
Texto publicado em 23/5/2005

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