BRINCANDO DE
PASSAR ANEL
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F
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ica um pouco mais difícil contar histórias em momentos de
turbulência. Até que tentei escrever mais um episódio da farra do boi. Não
consegui. Arrisquei um outro assunto qualquer. Empaquei. Pensei em
pedir para que o editor repetisse uma das crônicas já publicadas. Desisti da ideia.
O
tempo passava. O prazo para envio da matéria ao jornal se esgotava e eu não
saía do primeiro parágrafo. Decididamente, minha inspiração para a farra do boi
tinha ido para o brejo, arrastada pela lama formada com a farra dos homens.
Dava
uma parada, tomava um pouco de ar e voltava ao texto. Começava a escrever e a
lembrança das últimas notícias se repetia na mesma rapidez com que aconteceram
os fatos, atrapalhando meu raciocínio.
“Dra. Ruth vence a eleição e é a nova prefeita
da cidade”. Sua vitória agradou a alguns e frustrou a expectativa de outros
tantos. Normal. Agradar a todos é impossível. Novos dirigentes. Nova filosofia
de administração. Novos rumos.
“Dra.
Ruth é afastada de seu cargo, sob acusação de irregularidades na campanha
eleitoral”. Deverá ficar à parte, até que se apure a consistência dessas
acusações. Passados mais ou menos três meses da posse. Para a cidade um baque.
Uma interrupção inconveniente e prejudicial. Necessária, no entanto, para que
se coloque tudo em pratos limpos.
“Interinamente, o cargo de prefeito será
ocupado pelo Sr. Montanheiro, presidente da Câmara”. Isso porque o
vice-prefeito eleito também foi afastado. Menos mal, pensei. Pelos menos a
rotina não para. A minha preocupação era com os serviços básicos, como
educação, saúde e segurança. Ainda bem que não estão interrompidos.
Agora
tudo se acomoda. Processo em andamento e governo interino, até que se esclareça
a verdade dos fatos. Nada com que se preocupar.
Ledo
engano. As notícias não pararam por aí. “Sra. Dalvani toma posse como prefeita
da cidade. O Sr. Montanheiro, consequentemente, é afastado do cargo.” Estranhei,
mas fiquei tranquilo, quando li a integra da notícia. A posse foi determinada
por decisão judicial. Portanto, de acordo com a lei. Basta aguardar a conclusão do processo que
afastou a Dra. Ruth e tudo estará resolvido. Enganei-me novamente. “A
justiça afasta a Sra. Dalvani e reconduz o Sr. Montanheiro ao comando interino
da prefeitura”.
Começo
a achar, então, que essa história, infelizmente, está indo longe demais.
Tentando me lembrar de onde eu conhecia algo parecido, fui parar lá na minha
infância. Na brincadeira do passa anel. As crianças ficavam sentadas em
círculo, mãos estendidas. Uma delas escolhia com quem deixar o anel, a quem
transferir o comando. A brincadeira seguia em frente e o anel, símbolo do
poder, mudava de mãos, rápida e continuamente. Rápida e inocentemente. Sem
causar danos a ninguém.
Talvez,
com saudades da infância, essas pessoas tenham resolvido brincar um pouco.
Recordar o passado, brincando de passar anel. Mudar o poder de mão em mão,
rápida e continuamente. Rápida e perigosamente. Sem se importar com os riscos
de sérios danos a toda uma cidade. E eu fico esperando que essa brincadeira
termine logo. Não vejo a menor graça no que estão fazendo. E espero por um
final feliz e sensato. Afinal, estão brincando, irresponsavelmente, com a sorte
de milhares de pessoas.
E,
quando tudo estiver resolvido, corro para o brejo, recupero minha inspiração e
volto a falar sobre a farra do boi.
Texto
publicado em 23/5/2005
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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