JOGANDO CONVERSA FORA
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erça-feira à tarde. Em Itapevi, de passagem. Na
lanchonete, enquanto me preparo para a viagem de volta, me vem a ideia de
conhecer pessoalmente um amigo de correspondências.
Graças
ao recurso da tecnologia, dali mesmo, daquela mesa, ligo para um número e,
imediata, a resposta: “estarei aguardando”. Pertinho, cinco minutos, a redação
do Itapevi Agora. Toco a campainha e uma voz no porteiro eletrônico avisa que
posso entrar. Abro a porta. Uma escada a subir. Sentindo minha presença, um
cachorro se antecipa e vem ao meu encontro. Na minha ignorância sobre raças de
animais, pareceu-me um leãozinho. Ele me sorri latindo e eu subo as escadas.
Lá
em cima, em uma sala ampla, confortável, com muita luz natural de uma janela
com vistas para parte da cidade, uma família bonita, simpática e trabalhando.
Interrompem o que fazem para me receber. Cumprimento a todos e me sento.
Sento-me à mesa do meu amigo Kazumi e iniciamos conversa. Falamos de nossas
carreiras profissionais. Origens, esboços de projetos, um pouco de cada
coisa. Enfim, nos apresentamos
pessoalmente.
Os
assuntos se sucedem desordenadamente e na velocidade imposta pelo tempo que
temos disponível. Estou preocupado com o trânsito da volta e com as tarefas que
eles têm por concluir. Falamos sobre um amigo comum que trabalhava como
balconista. Hoje, jornalista formado.
Sobre o rio da prefeitura com suas
corredeiras e águas fundas e da preocupação das mães para que seus filhos as
evitassem. Sobre o menino pequeno que levava o cavalo para pastar do outro lado
da cidade. Sobre o pai desse menino. Comerciante. Batalhador.
Passeamos
pelo passado e falamos do Juvêncio, o Justiceiro do Sertão. A novela que parava
a garotada no que estivesse fazendo e a reunia onde houvesse um aparelho de
rádio. Poucos, naquele tempo. Na bicicletaria, próximo ao cinema, havia um.
Dezessete e quarenta e cinco. Dezoito e quarenta e cinco. Não soubemos precisar
o horário. Rádio Piratininga de São
Paulo.
Falamos
um pouco sobre os grupos escolares da época. Das turmas do Briquet e do Rondon.
Lembramos dos trilhos de bitola estreita que iam da estação à pedreira,
passando por trás do campo do Grêmio.
Aproveitamos
a vista da janela da sala e recordamos o tempo em que um brejo, com muitas rãs,
dava lugar às construções e asfalto que vemos agora.
Falou-me
sobre as diferentes versões da origem do nome da cidade. Como o rio do
pontilhão, com suas pedras chatas ou, ainda, as escavações para a extração de
pedras na pedreira poderiam ter contribuído para a formação desse nome. Sabe
muito esse meu novo amigo!
E o
goleiro muito bom de bola que não conseguimos lembrar o nome. E o carro de boi.
E o barzinho perto do campo de bocha. E a ponte de madeira onde ficavam os
engraxates. E os diversos jornais que a cidade já teve. E os nossos craques do
passado. E os bares do seu Bernardes, do Nelson e do Jesuíno. E os moradores
antigos com suas histórias.
Puxa!
São tantos assuntos que nem vi a hora passar. Até outro dia. Foi
um prazer imenso conhecê-los.
Publicado em 26/1/2002
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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