sexta-feira, 24 de janeiro de 2020


JOGANDO CONVERSA FORA



T
erça-feira à tarde. Em Itapevi, de passagem. Na lanchonete, enquanto me preparo para a viagem de volta, me vem a ideia de conhecer pessoalmente um amigo de correspondências. 
Graças ao recurso da tecnologia, dali mesmo, daquela mesa, ligo para um número e, imediata, a resposta: “estarei aguardando”. Pertinho, cinco minutos, a redação do Itapevi Agora. Toco a campainha e uma voz no porteiro eletrônico avisa que posso entrar. Abro a porta. Uma escada a subir. Sentindo minha presença, um cachorro se antecipa e vem ao meu encontro. Na minha ignorância sobre raças de animais, pareceu-me um leãozinho. Ele me sorri latindo e eu subo as escadas.
        Lá em cima, em uma sala ampla, confortável, com muita luz natural de uma janela com vistas para parte da cidade, uma família bonita, simpática e trabalhando. Interrompem o que fazem para me receber. Cumprimento a todos e me sento. Sento-me à mesa do meu amigo Kazumi e iniciamos conversa. Falamos de nossas carreiras profissionais. Origens, esboços de projetos, um pouco de cada coisa.  Enfim, nos apresentamos pessoalmente.
     Os assuntos se sucedem desordenadamente e na velocidade imposta pelo tempo que temos disponível. Estou preocupado com o trânsito da volta e com as tarefas que eles têm por concluir. Falamos sobre um amigo comum que trabalhava como balconista. Hoje, jornalista formado. 
       Sobre o rio da prefeitura com suas corredeiras e águas fundas e da preocupação das mães para que seus filhos as evitassem. Sobre o menino pequeno que levava o cavalo para pastar do outro lado da cidade. Sobre o pai desse menino. Comerciante. Batalhador.
       Passeamos pelo passado e falamos do Juvêncio, o Justiceiro do Sertão. A novela que parava a garotada no que estivesse fazendo e a reunia onde houvesse um aparelho de rádio. Poucos, naquele tempo. Na bicicletaria, próximo ao cinema, havia um. Dezessete e quarenta e cinco. Dezoito e quarenta e cinco. Não soubemos precisar o horário.  Rádio Piratininga de São Paulo.
        Falamos um pouco sobre os grupos escolares da época. Das turmas do Briquet e do Rondon. Lembramos dos trilhos de bitola estreita que iam da estação à pedreira, passando por trás do campo do Grêmio.
        Aproveitamos a vista da janela da sala e recordamos o tempo em que um brejo, com muitas rãs, dava lugar às construções e asfalto que vemos agora.
        Falou-me sobre as diferentes versões da origem do nome da cidade. Como o rio do pontilhão, com suas pedras chatas ou, ainda, as escavações para a extração de pedras na pedreira poderiam ter contribuído para a formação desse nome. Sabe muito esse meu novo amigo!
      E o goleiro muito bom de bola que não conseguimos lembrar o nome. E o carro de boi. E o barzinho perto do campo de bocha. E a ponte de madeira onde ficavam os engraxates. E os diversos jornais que a cidade já teve. E os nossos craques do passado. E os bares do seu Bernardes, do Nelson e do Jesuíno. E os moradores antigos com suas histórias.
        Puxa! São tantos assuntos que nem vi a hora passar. Até outro dia. Foi um prazer imenso conhecê-los.
Publicado em 26/1/2002

Texto do livro "Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em clubedeautores.com.br 

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