VINTE
MINUTOS DO PASSADO
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m dia desses recebi um e-mail interessante. No mínimo,
diferente. Perguntava se era eu quem tinha participado de uma caminhada à Pirapora, no ano de 1974. Isso mesmo. Trinta anos atrás.
É
lógico que não respondi de pronto. Mesmo porque, sem querer, deletei o endereço
eletrônico. Na hora pensei que tinha cometido apenas um erro comum. Agora, sei
que foi um erro especial. Um erro provocado pela emoção.
Demorei
um pouco para me refazer da surpresa e fui rebuscar lá no fundo da memória. Não
tenho muita certeza, mas me parece uma caminhada em torno de uns trinta
quilômetros. Teria, eu, percorrido toda essa distância a pé, de Itapevi à
Pirapora?
Era, já, tarde da noite e resolvi ir dormir.
No dia seguinte pensaria no assunto. Dormindo, a memória se colocaria em ordem.
Li um pouco, assisti TV, ouvi música e nada de “pegar no sono”. Aquela pergunta
mexeu comigo.
Sou
eu mesmo o andarilho dessa história toda. E eu sabia disso, desde o primeiro
instante. Aliás, impossível esquecer experiência tão agradável. E, andarilho
por um bom motivo, diga-se de passagem.
Um
grupo de jovens, unidos em torno de uma causa comum: fazer companhia a um casal
de amigos, Claudete e Lourenço, numa peregrinação em pagamento a uma promessa.
Imaginem
vocês a surpresa e alegria de receber um e-mail de alguém que não vejo há quase
trinta anos. Emoção maior ainda quando, alguns dias depois, nos falamos por
telefone.
Muitos
assuntos ao mesmo tempo e um pouquinho de cada. Falamos dos filhos. Da família.
Das casas e coisas do Bairro. Falamos das pessoas. Dos amigos queridos. Das
meninas que se reuniam na área da casa da dona Iria Vaz. Olhadas, sem nenhum
interesse e à distância, pelos meninos que fingiam distraídos com uma atividade
qualquer. Por sua vez, olhados disfarçadamente pelas meninas que fingiam
ocupadas com assuntos mais importantes. Muito mais importantes do que alguns
garotos, igualmente desinteressantes, jogando bola na rua. Sutilezas.
Falamos
de nossos pais. De nossos irmãos. Das tias. Dos primos. Falamos de nossas
relíquias. A foto do grupo, tirada em frente à igreja de Pirapora. A fita com o
som de uma sanfona maravilhosamente tocada pelas mãos hábeis do Leque.
Recordações.
Trocamos
notícias e lembranças sobre alguns amigos. Dudu, Luizinho, Walter, Vilma, Maria
Clara. Falamos das procissões. Que eram, por nós, muito mais seguidas do que
acompanhadas. Estávamos sempre no final das filas. Era mais tranquilo para
conversas e paqueras.
E suas
primas? Martha, Nancy, Maria Emília, Maria Clara. Que bom saber um pouco de
cada uma dessas pessoas que marcaram uma fase de nossas vidas e conquistaram,
para sempre, um pedaço de nossos corações. Lembranças.
Pois
é, querida amiga Neide. Fomos juntos à Pirapora, sim. A pé. Há trinta anos,
mais ou menos. Nós e nossos amigos. Nós e nossa fé. Numa caminhada que deixou
saudades, eu acredito, a todos do grupo.
E
foi assim, amigo leitor, nosso diálogo. Um falatório pra ninguém botar defeito.
Quase que os dois falando ao mesmo tempo. Mas não tinha outro jeito. Se assim
não fosse, seria impossível falarmos de tantas coisas e reunir todas essas
emoções em apenas vinte minutos de conversa telefônica.
Texto
publicado em 13/3/2004
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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