PROBLEMAS DE
CIDADE GRANDE
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E
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le estava sentado em um dos muitos bancos do parque. Sentei-me
ao seu lado para beber uma garrafa d’água que comprei na barraquinha em frente.
Quanta gente, não? É, respondi. Todo fim de semana é assim. De graça, existem
poucos lugares para se divertir nesta cidade. Por isso está cheio; aqui não se
paga ingresso.
Mas
não foi sempre assim, disse ele. Quando vim pra cá, saindo do interior, isso
aqui era uma maravilha. Aí, começamos por cortar as árvores, abrindo estradas
para permitir acessos. No início, com foices e machados. Ninguém se incomodou e
passamos para a motosserra, derrubando toda vegetação que encontrávamos pela
frente.
Abrimos
valetas para a água da chuva. Ninguém prestou atenção e canalizamos também os
esgotos e produtos químicos, despejando tudo no principal rio da cidade.
Construímos
indústrias, criando oportunidades de empregos. Ninguém se lembrou, no entanto,
de tratar os resíduos que poderiam fazer mal ao meio ambiente.
As
ruas estreitas se tornaram insuficientes para o tráfego e abrimos novas
avenidas. Sem planejamento e sem nenhum cuidado com a preservação do nosso patrimônio
histórico, demolimos tudo que estivesse atrapalhando.
Um
dia alguém jogou uma caixa de fósforos no chão; em outro, uma caixa de sapatos;
em um terceiro, uma caixa de madeira. Olhamos para os lados, ninguém se
importou, jogamos mais e mais caixas, muitas garrafas, colchões, pneus, fogões,
geladeiras e carcaças de carros. Hoje sofrem os que não se importaram e os que
fizeram de nossa cidade um verdadeiro depósito de lixo.
As
carroças já não atendiam. Trocamos por veículos mais potentes e velozes. Não
nos preocupamos, entretanto, com nossas ruas. Estreitas e com muitos
cruzamentos. E nossos carros velozes hoje quase não saem do lugar, presos nos
enormes congestionamentos.
Nossas
praças eram bonitas. Tinham até coreto para apresentação das bandas musicais.
Alamedas para o footing do final de semana. Descuidamos e elas foram invadidas
por desocupados que depredaram o que encontraram pela frente.
Os
muros e fachadas das construções, por sua vez, eram muito bem cuidados. Começamos
colando alguns cartazes, alguns riscos de giz de cera, uma ou outra plaquinha
de vende-se. Nenhuma providência e está aí o resultado. Cartazes e pichação em
toda parte.
Eu
ouvia atentamente o que ele dizia e, ao mesmo tempo, tentava calcular sua idade.
Não parecia velho. Entre cinquenta e sessenta anos, aproximadamente. E
ele falava como se tudo aquilo tivesse demorado muito mais tempo para
acontecer. Mas não. Aconteceu tudo muito rápido.
Pra
que você faça melhor ideia do que estou dizendo, fiz muitos piqueniques nas
margens desses rios. Bons tempos aqueles, disse com voz carregada de um misto
de saudade, culpa e arrependimento.
No
meu tempo, continuou ele, os batedores de carteiras que agiam no centro velho
iniciaram a onda de cobiça pelo alheio. Fizemos vistas grossas e deu no que
deu. Uma carteira, um relógio, um carro, bancos e, hoje, nos assaltam em nossa
própria casa.
Esses,
meu amigo, apenas alguns dos muitos problemas de uma cidade grande. Poderiam
ter sido evitados ou corrigidos antes que a cidade crescesse. Agora é tarde,
não tem mais jeito, completou e calou-se em seu canto.
E
eu, que já estava ficando muito preocupado, tranquilizei-me um pouco com sua
última observação. Minha cidade, comparada a essa, ainda é pequena. Seus
problemas, portanto, estão apenas começando. Ainda dá tempo, ainda tem jeito.
Levantei-me,
joguei a garrafa vazia, no lixo, e continuei meu passeio.
Texto
publicado em 22/1/2005
Texto do livro
"Itapevi - minha cidade - em dois tempos - 2018 - À venda em
clubedeautores.com.br

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